Na semana passada, pensando na nova encíclica do Papa, intitulei a minha crónica recorrendo a uma expressão, utilizada no século passado por alguns pensadores católicos para identificar a Doutrina Social da Igreja. Houve mesmo quem ousasse apelidá-la de «Quinto Evangelho».
Quero prosseguir a minha reflexão a partir do «desafio» lançado por Leão XIV, logo nas primeiras palavras. Ou permitimos a construção de uma nova Babel, onde reina a confusão que nasce do desprezo por Deus e do consequente esquecimento da dignidade humana, ou restituímos à humanidade a sua condição de «magnífica», empenhando-nos para que ela seja «habitada» por Deus. Com o regresso de Deus ao mundo, o ser humano resplandecerá na sua dignidade e nos seus direitos.
Sabemos que o pensamento do atual Papa tem sempre subjacentes os ensinamentos de Santo Agostinho. Nada perdemos ao aproximarmo-nos deste Padre da Igreja.
Hoje, quero recorrer, de modo muito sumário e elementar, ao que ele propõe na sua obra paradigmática A Cidade de Deus (tradicionalmente referida como As Duas Cidades). Não é fácil fazê-lo nos limites de um pequeno artigo. Basta, porém, uma ideia fundamental.
Para compreender o que aí se sublinha, é obrigatório recorrer ao contexto histórico em que viveu (354-430). O Império Romano impôs a sua cultura, acolhendo muito do helenismo, com a qual o cristianismo se confrontou. Durante o século IV, assistimos às invasões dos povos chamados indo-europeus, também designados por germânicos ou bárbaros. Foram muitos e diversificados. Merecem especial relevo os saques de Roma, particularmente o de 410, quando os visigodos, liderados por Alarico, sitiaram e saquearam a cidade que se considerava a «Cidade Eterna».
Santo Agostinho viveu nessa época, e foi perante este cenário de destruição patrimonial e cultural (numa sociedade já profundamente marcada pelo cristianismo) que escreveu essa sua grande obra. Havia um mundo que parecia não temer ataques nem confrontos; porém, surgia agora um novo modo de construir a sociedade. Tudo se foi desenvolvendo até à queda do Império Romano do Ocidente, em 476. O cristianismo assumira a cultura romana, fortemente enraizada no legado helénico, e tinha agora diante de si uma ou várias novas culturas.
Neste contexto, Santo Agostinho descreve o mundo, dividido entre a cidade terrestre, edificada pelos homens, e a cidade celeste, cuja construção era urgente para salvar o homem. Diante destes dois cenários, aborda os mais complexos problemas humanos, recorrendo sempre à sua experiência pessoal e à convicção de que tudo deve partir da interioridade, para dar consistência às novas exigências.
É um desafio idêntico àquele que devemos ser capazes de aceitar. A cidade dos homens necessita de ser habitada por Deus. O Papa fala, na sua encíclica, de uma «crise antropológica», porque se esqueceu o Criador. Por um lado, temos a «cidade do homem», construída sobre o orgulho e o amor-próprio, caracterizada por um individualismo egoísta; por outro, a «cidade de Deus», edificada sobre o amor a Deus até ao altruísmo e ao cultivo das relações, construindo a civilização do amor. Pode haver quem pense o contrário. Contudo, na crise que estamos a viver existe uma autêntica «sede de Deus». E a Igreja tem a responsabilidade de lhe oferecer respostas concretas.
A cidade dos homens é construída por aqueles que verdadeiramente a amam, labutando, individualmente ou de forma associativa e comunitária. Há um combate entre dois amores. «O amor de Deus é o primeiro na ordem dos preceitos; o amor ao próximo é o primeiro na ordem da execução», diz Santo Agostinho.
Esta doutrina já havia sido assumida pelo Papa Francisco na sua Exortação Apostólica A Alegria do Evangelho, que quis que marcasse uma «nova etapa evangelizadora» e indicasse «caminhos para o percurso da Igreja nos próximos anos». Penso não ser exagero reconhecer que tudo aí converge para o capítulo intitulado «A Dimensão Social da Evangelização». Nele, fala-se, entre outros temas, da confissão da fé e do compromisso social, da inclusão social dos pobres, da economia e da distribuição dos bens, do cuidado dos mais frágeis, do bem comum e da paz social. Referia-se ainda o diálogo social como contributo para a paz, nomeadamente entre a fé, a razão e as ciências sociais, sem esquecer o diálogo ecuménico, inter-religioso e com os não crentes (cf. capítulo IV).
Também não devemos esquecer o que o Documento Final do Sínodo aponta relativamente à renovação da Igreja, que quer ser sinodal e missionária. Ou seja, uma Igreja que caminha com todos os homens, onde quer que eles se encontrem, e que aí solicita e espera uma corresponsabilidade transformadora, através do protagonismo de todos os cristãos, seguindo as inspirações do Espírito Santo. O Sínodo fala de uma Igreja como «profecia social», que deve «inspirar novos caminhos também para a política e a economia, colaborar com todos os que acreditam na fraternidade e na paz, num intercâmbio de dons com o mundo» (Documento Final, n.º 153).