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Que significa «Participar» na Liturgia? (3)

Segundo a «Sacrosanctum Concilium (SC, 14) é desejo ardente da Igreja levar todos os fiéis a uma «participação plena, consciente e ativa nas celebrações litúrgicas, como decorre da própria natureza da liturgia e à qual tem direito e obrigação todo o povo cristão em virtude do batismo».

Participação plena não significa que toda a gente deve fazer tudo; «consciente» não significa que tenhamos de nos concentrar no significado de cada frase, ou seja, não é um assunto intelectual; «ativa» não significa buliçosa ou aos gritos. Estes 3 adjetivos podem viver-se perfeitamente nos momentos de silêncio, porque a liturgia vive-se sobretudo através do corpo, não apenas o individual e os seus cinco sentidos: ver, ouvir, tocar, saborear, cheirar, mas também o corpo comunitário em que as interações desempenham um papel primordial na «participação». Pensemos sobretudo na importância do canto.

Na liturgia, os fiéis não «assistem», como outrora se dizia e ainda dizem alguns por força do hábito e de uma certa prática, mas «participam» nela. Esta mudança de vocabulário é muito importante e significativa, bem como desafiante. Claro que o papel do bispo ou do sacerdote que preside à celebração é fundamental, até porque a sua forma de presidir influi consideravelmente na participação da assembleia. E como a liturgia é uma experiência vivida, essa dificuldade na receção supõe um obstáculo para a participação plena, consciente e ativa

A liturgia é uma experiência que se vive, pelo que a forma afeta o fundo: mal lido o texto evangélico, mais difícil é a sua receção como Palavra de Deus.

Chauvet questiona se os sacerdotes não deveriam integrar na própria espiritualidade, que requer o seu ministério, a ideia de que necessitam de se deixar «reformar» constantemente na sua maneira de celebrar: gestos que não sejam nem demasiado descuidados nem demasiado ostentosos; atitudes que não sejam nem vulgares nem hieráticas; tom e cadência de voz que se modulem em função de se se trata de uma palavra de acolhimento e boas vindas, da breve apresentação de uma leitura; ou da oração eucarística. Na liturgia, o costume é um fator importante, porque os ritos não se inventam: recebem-se de uma tradição. Isto aplica-se tanto ao âmbito profano – por exemplo: «bom aniversário», como no religioso: «o Senhor esteja convosco». Mas esta rotina, que é importante e tem a vantagem de agilizar a liturgia, pode converter-se também num alçapão: podem executar-se as rubricas de maneira mecânica, podem adquirir-se maus hábitos de que já não nos damos conta.… Enfim! Quantas queixas sobre os sacerdotes e a sua maneira de presidir à celebração! Não deveríamos aceitar com humildade que nos «corrijam», apesar de ser muito difícil de aceitar, porque, muitas vezes, confundimos a pessoa com a função?

Também é de esperar um pouco mais de flexibilidade, liberdade e simplicidade. Claro que há o temor de que esta liberdade possa provocar uma rutura na Igreja. Uma dupla rutura, aliás: a) a de uma inculturação que se considera demasiado arriscada, tendo em conta a grande diversidade de povos que conformam a Igreja católica; b) a de uma inventiva mal calibrada, tendo em conta a importância da subjetividade individual na pós-modernidade. Convém estar atentos a estes dois temores e tê-los em conta.

Chauvet serve-se da experiência de ter participado em várias missas de rito zairense para corroborar e confirmar o êxito de tal inculturação. Não apenas no plano estético e participativo, mas também no plano teológico e, imagine-se, por surpreendente, até no espiritual. Porque não se oferecem outras possibilidades? Porque não há de haver diferenças entre celebrar em Kinshasa, Texas, Seul ou nos subúrbios europeus? Tenhamos em conta que «compreender a liturgia» não é unicamente uma questão intelectual.

Não terá chegado o momento de dar um pouco mais de liberdade, em vez de reduzir ainda mais o espaço de flexibilidade e liberdade que requer a receção da Palavra e dos sacramentos na atual cultura «mutante»? Não, certamente, para deixar que cada um faça o que queira … Fundamentalmente, isto significaria que a dinâmica que anima cada um dos principais momentos da missa fosse bem compreendida desde o ponto de vista teológico. É isso que tentaremos fazer com a ajuda de Chauvet em próximos textos sobre este assunto.

Carlos Vaz

Carlos Vaz

3 junho 2026