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Dia Mundial da Criança

Dizem-nos Vossemecês que, anteontem, foi o nosso Dia Mundial; mas ninguém nos perguntou se queríamos que ele fosse mesmo no primeiro dia de Junho; e, cá por mim, protesto porque acho que este não é o melhor dia do ano para Dia Mundial da Criança.

E eu explico: era muito mais giro que fosse no dia de Carnaval ou no primeiro dia da Primavera, pois têm muito mais a ver connosco, uma vez que estamos muito bem-dispostos e brincalhões; e parece-me até indecente que Vossemecês nos obriguem a ter um Dia Mundial que não foi escolhido por nós e que só serve para se dizerem umas tantas coisas bonitas e pouco mais, como, por exemplo que somos os homens de amanhã, as coisinhas mais lindas e fofas do mundo, uns filhos porreiraços, uns alunos bestiais... enfim, coisas que não passam de conversas de chacha, por detrás das quais andam mas é os vossos interesses e deslealdades.

Chego a pensar que, afinal, às vezes é triste ser criança; e, sobretudo, quando aparecem na televisão aquelas criancinhas mirradas, como fios de azeite, a sofrer e a morrer de fome e de doença, dão-me cá umas ganas de as ir buscar e lhes encher o bucho da broa e do caldo que não falta nunca em minha casa.

E, então, aquelas que são maltratadas e obrigadas a trabalhar sem idade e força para isso ou as que ficam cegas, marretas e órfãos por causa das guerras? Ora, nem gosto sequer de pensar nestas coisas e acho que é uma grande cobardia de Vossemecês não acabarem com tais guerras, até porque não é justo que tantas crianças sofram tanto sem culpa nenhuma.

A minha professora costuma dizer que nós temos o direito de nascer e viver com dignidade e muito amor, fala bem e gosto dela, porque é a única pessoa que me compreende, fala comigo; e, até, põe as suas mãos nos meus cabelos para me acarinhar e dar-me força para estudar com alegria e interesse.

Até porque o meu pai, quando fala comigo, é só a berrar, a dizer carvalhadas e a minha mãe muitas vezes me chama cabeça de burro e me obriga a andar com o meu irmão Toninho ao colo que ainda só tem oito meses e, às vezes, me suja e arranha.

Frequentemente me ponho a pensar que se todos os homens ricos que há no mundo dessem às crianças somente aquilo que lhes sobra e desperdiçam, já podia haver um Dia Mundial da Criança todos os dias e não uma vez por ano; ora, é uma pena porque Vossemecês tanto falam de nós neste dia, mas amanhã continua tudo na mesma ou pior ainda.

Há dias, a minha professora viu-me a olhar para o teto, assim como quem está na

lua e disse:

– Eh Zé! tu pensas muito e sonhas demais que até pareces um poeta!

Gostei desta tirada, porque é assim mesmo e não sei porquê, mas, enquanto os meus colegas jogam à bola, à teila, à tulipa, ao pião e ao rapa, eu vagueio pelos campos mãos atrás das costas e olhos no céu a sonhar; pois uma vez que a sonhar é que a gente tem tudo, faz coisas incríveis e até chega a ser feliz.


 

Deixem, pois, Vossemecês, ao menos sonhar as crianças nem que seja com aquilo que nunca vão ter; a mim, garanto-lhes que ninguém me roubará o sonho, porque aí, ao menos sou criança a valer quando quero e como quero.

Pensem nisso e lembrem-se que, quando Vossemecês forem velhos, seremos nós a governar o mundo; e, talvez, precisem muito daquilo que agora podiam nos dar e não dão: paz, alegria, carinho e amor, veremos, pois, se o terão.

Mesmo assim, aí vai uma grande e apertada mãozada para Vossemeçês todos por conta do Dia Mundial da Criança de anteontem, embora para mim sem grande satisfação, deste que se assina e chama Zé Mindinho.

Então, até de hoje a oito.

Dinis Salgado

Dinis Salgado

3 junho 2026