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Por Entre Linhas e Ideias

O que é, afinal, ser pessoa, num tempo em que a inteligência parece já não pertencer apenas aos humanos? Esta crónica pretende ser, antes de tudo, um tributo à vida e à obra de Edgar Morin, pensador francês que morreu recentemente aos 104 anos e que nos deixou uma das grandes lições intelectuais do nosso tempo, a de que compreender o mundo exige ligar aquilo que tantas vezes a escola, a política e a vida separam.

Esta pergunta acompanhou-me na passada segunda-feira, quando estive na Escola Secundária de Penafiel, como convidado para integrar o júri da final do Torneio da Retórica. Os alunos debateram se o progresso tecnológico, hoje tão marcado pela Inteligência Artificial, nos torna melhores pessoas. Percebia-se que a questão ia para além da tecnologia, porque no fundo perguntávamos o que ainda distingue a inteligência humana das ferramentas que hoje a imitam.

É neste contexto que a morte de Edgar Morin surge de forma especial. Foi um dos grandes pensadores da complexidade humana, alguém que atravessou o século XX e entrou pelo século XXI sem se deixar fechar numa disciplina ou numa ideologia. Foi sobretudo alguém que nos ensinou a ligar saberes, perguntas e responsabilidades.

Lembro-me bem de o meu professor de Filosofia ter aconselhado a leitura de O Paradigma Perdido - A Natureza Humana. Apesar das dificuldades económicas, o meu pai comprou-me o livro e não sei se, naquela altura, compreendi tudo, provavelmente não, mas ficou-me a impressão de estar perante uma ideia fundamental, a de que o ser humano não tem uma definição simples como a dada por Aristóteles. Não somos apenas razão, nem apenas corpo, nem apenas cultura, nem apenas natureza. Somos esse cruzamento entre biologia, linguagem, sociedade, morte, desejo e pensamento.

Talvez muitos leitores conheçam uma das ideias mais fortes de Morin, a ideia de complexidade. Mas importa dizê-lo de forma simples. Para Morin, complexo não significa confuso, significa que tudo está ligado. A vida humana, a escola, a sociedade e a educação não podem ser compreendidas em partes, como se cada uma estivesse só. Quando recupera a ideia de Montaigne de que mais vale uma cabeça bem-feita do que uma cabeça bem-cheia, Morin lembra-nos algo muito atual. No livro Os Sete Saberes Necessários à Educação do Futuro, defende que educar é ensinar a condição humana, a compreensão, a incerteza, o erro e a nossa identidade enquanto seres que vivem juntos. Educar não é despejar informação, é ajudar cada pessoa a relacionar, a duvidar, a compreender e a agir.

Ao ouvir aqueles jovens debaterem se a tecnologia nos torna melhores pessoas, pensei em Morin e também no filósofo Byung-Chul Han, porque estes autores ajudam-nos a responder à pergunta inicial sobre o que é ser pessoa. Ser pessoa é mais do que estar ligado a tudo e disponível para todos. É estar presente, escutar, cuidar, conversar e reconhecer o outro diante de nós.

Os leitores sabem bem como este problema já faz parte da nossa vida diária. No livro A Sociedade do Cansaço, Han ajuda-nos a perceber que vivemos cansados pelo excesso, sempre diante dos ecrãs, sempre disponíveis e chamados a responder. A tecnologia ajuda-nos muito, mas, quando ocupa demasiado espaço, pode diminuir o encontro, a conversa e a atenção ao outro. É aqui que a Inteligência Artificial exige ainda mais cuidado, porque já não está apenas em causa estar ligado ou desligado, mas saber até que ponto entregamos à tecnologia a nossa forma de pensar, escolher e viver.

Na minha intervenção de encerramento deste evento, e como tenho defendido, procurei sublinhar que ser pessoa é mais do que ter inteligência, resolver problemas ou produzir respostas rápidas. Ser pessoa é interpretar o mundo, cuidar dos outros, reconhecer a própria fragilidade, assumir responsabilidades e transformar conhecimento em compreensão.

Deixo, por isso, aos leitores do Diário do Minho a mesma pergunta que deixei ao auditório da Escola Secundária de Penafiel.

- Perante a Inteligência Artificial, que humanidade queremos preservar?

Eugénio Oliveira

Eugénio Oliveira

3 junho 2026