twitter

“Magnifica Humanitas” (2)

1. Atentemos na interessante imagem que Leão XVI apresenta no n.º 10, onde convida "a evitarmos a “síndrome de Babel”", que é não só "a idolatria do lucro, que sacrifica os mais fracos", mas ainda "a uniformidade, que anula as diferenças" e "a pretensão de uma linguagem única – mesmo digital – dedicada a traduzir tudo em dados e desempenhos, inclusive o mistério da pessoa". Ora, este "é o risco da desumanização", que é "construir o futuro excluindo Deus e reduzindo o outro a um meio", "uma tentação tão antiga e tão nova, que hoje assume também uma faceta técnica". Ao invés, o Papa exorta a que "escolhamos o “caminho de Neemias”, que destaca o valor do trabalho conjunto para "reconhecer, na pluralidade de vozes e visões […] a existência duma possibilidade luminosa: a de edificar juntos, transformando a diversidade num recurso e fazendo da escuta e do diálogo o terreno comum no qual crescem a justiça e a fraternidade." Tão impressiva foi esta imagem dos dois caminhos, que circulou nas redes sociais uma figura em que, ao lado da orgulhosa construção torre de Babel, está estoutro caminho, simples e profícuo, mas cheios de veredas, por onde circulam mensagens da Magnífica Humanidade – o esplendoroso título da Encíclica. É este o caminho desta Encíclica, auscultando nos fulgores da tecnologia robótica os elos de fraternidade e de respaldo do humano.


 

2. Precisamente, o n.º 15 intitula-se “permanecer humanos”, pois, na "era da inteligência artificial (IA), em que a dignidade humana corre o risco de ser ofuscada por novas formas de desumanização, temos o dever urgente de permanecer profundamente humanos"; então, o apelo de Leão XIV é "que pareis a construção da enésima Babel, congregando forças para edificar no bem, a fim de que a humanidade nunca perca a própria beleza e o mundo possa reconhecer mais uma vez, no coração do ser humano, o lugar onde Deus deseja habitar".

Segue-se então o cap. I, “Um pensamento dinâmico fiel ao Evangelho”, sobre "o caminho através do qual a Doutrina Social da Igreja (DSI) tomou forma no recente Magistério dos Papas" – do qual já fizemos uma súmula no nosso artigo anterior. No cap. II, sobre “Fundamentos e princípios da DSI”, Leão XIV salienta "que hoje, para salvaguardar a pessoa humana na era da inteligência artificial (IA), devemos voltar a reflectir sobre o bem comum, a destinação universal dos bens, a subsidiariedade, a solidariedade e a justiça social" (nº 46).


 

3. Um dos princípios nucleares é "a igual dignidade de todos os seres humanos" (nº 51), pelo que "é importante vigiar para que este incremento na compreensão da dignidade humana não seja ofuscado pela pressão de novas ideologias ou de determinados interesses muito poderosos no mundo de hoje". Ora, entre estas ideologias, é "particularmente perigosa a que sugere o dever de cada pessoa conquistar ou justificar o próprio valor, a ponto de atribuir maior mérito àqueles que são mais eficientes e conseguem melhor desempenho". O grave problema é que "a pessoa acaba por ser reduzida a um meio para atingir resultados, um recurso a utilizar e explorar, deixando de ser reconhecida em si mesma como um fim, jamais instrumentalizável". O princípio de oiro que guia a DSI é que "o valor da pessoa não depende do que ela realiza ou produz, pois existem direitos que pertencem a todos simplesmente por serem pessoas", que, ademais, "nenhum poder humano tem legitimidade para, arbitrariamente, os negar ou limitar".


 

4. Após uma longa reflexão sobre a dignidade humana e "o altíssimo valor dos direitos humanos", dá-se amplo desenvolvimento aos princípios da DSI, isto é, aos seguintes princípios: do bem comum (aludimos no antigo anterior), da destinação universal dos bens, de subsidiariedade, de solidariedade, da justiça social. O princípio de subsidiariedade estipula que "aquilo que as pessoas, as famílias, as comunidades locais e os organismos intermédios podem fazer não deve ser absorvido por instâncias superiores" (nº 68), pelo que "a Igreja tem insistido na ideia de que nem a pessoa nem a família devem ser absorvidas pelo Estado, sendo necessário permitir-lhes, na medida do possível, agir livremente sem prejudicar o bem comum"(nº 69). Na verdade, "numa lógica de subsidiariedade, as decisões são tomadas ao nível mais próximo possível das pessoas envolvidas, valorizando a vida associativa, de modo que o povo não se depare com decisões já tomadas, mas possa integrar o processo da sua construção" –, princípio que, desde o Tratado de Lisboa, norteia a política interna da União Europeia.


 

5. Considera depois Leão XIV que "o desenvolvimento só é autêntico se for “integral”, ou seja, destinado a “promover todos os homens e o homem todo” (nº 82), que é "o horizonte a partir do qual devemos interpretar as transformações do nosso tempo, incluindo as da revolução digital" (nº 85), já que "as inovações tecnológicas – entre elas a IA – não são neutras: podem aumentar a participação e a justiça, ou, pelo contrário, agravar desigualdades, controle e exclusão".

Prosseguiremos com este tema, isto é, o cap. III, “Técnica e domínio: a grandeza da pessoa humana perante as promessas da IA”.


 

O autor não escreve segundo o denominado “acordo ortográfico”

Acílio Estanqueiro Rocha

Acílio Estanqueiro Rocha

2 junho 2026