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Contra a transumanidade

 



 



 

A primeira encíclica do Papa Leão XIV, Magnifica humanitas, merece ser lida muito para além dos círculos religiosos. O documento representa uma das reflexões éticas mais relevantes dos últimos anos sobre inteligência artificial, tecnologia e poder. Num tempo em que grande parte do debate público oscila entre o entusiasmo ingénuo e o medo difuso, a encíclica recoloca no centro a questão essencial: o que significa permanecer humano numa civilização cada vez mais governada por algoritmos? O mérito principal do texto está em recusar a ideia de que a tecnologia seja neutra. A inteligência artificial não surge no vazio. É concebida, financiada e utilizada por estruturas económicas e políticas concretas. Quem controla os sistemas tecnológicos controla, em larga medida, a informação, o comportamento, o consumo, o acesso ao crédito, ao emprego, à saúde e a própria perceção da realidade. Quando Leão XIV alerta para o risco de reduzir o ser humano a dados, desempenho e produtividade, está a tocar no coração do problema contemporâneo. Nunca existiram instrumentos de vigilância, previsão e condicionamento social tão poderosos. A combinação entre inteligência artificial, recolha massiva de dados e plataformas digitais permite hoje um nível de conhecimento sobre a vida humana que regimes totalitários do século XX jamais conseguiram alcançar. Mas a encíclica vai ainda mais longe ao confrontar diretamente as correntes transumanistas e pós-humanistas que ganharam influência nos grandes centros tecnológicos e académicos. A ideia de que o ser humano é uma estrutura “ultrapassável”, passível de ser melhorada, corrigida ou substituída por sistemas artificiais, deixou de ser mera ficção filosófica. Para muitos protagonistas da revolução tecnológica, os limites humanos – envelhecimento, fragilidade, dependência e imperfeição – são defeitos técnicos a eliminar. É precisamente aqui que o texto de Leão XIV assume importância. Ao defender que a fragilidade humana não é uma falha, mas parte integrante da dignidade da pessoa, a encíclica opõe-se frontalmente à visão pós-humanista que tende a transformar a humanidade num objeto de engenharia tecnológica. A inteligência artificial deixa então de ser apenas uma ferramenta e passa a integrar um projeto mais vasto de redefinição da própria condição humana. Mais preocupante ainda, é a incapacidade – ou falta de vontade – dos reguladores para enfrentar esta transformação. Os governos falam constantemente de inovação, competitividade e transição digital, mas raramente demonstram coragem para impor limites efetivos às grandes estruturas tecnológicas. Em muitos casos, os próprios agentes políticos parecem fascinados pela possibilidade de utilizar estas ferramentas para reforço do controlo administrativo, fiscal, policial e social. A questão já não é apenas económica. É civilizacional. A encíclica tem razão ao afirmar que o problema não é a tecnologia em si, mas a submissão da ética à lógica da eficiência absoluta. Uma sociedade orientada exclusivamente por métricas, automatização e previsão algorítmica corre o risco de perder aquilo que define a condição humana: liberdade, fragilidade, pensamento crítico, imperfeição e responsabilidade moral. O discurso dominante insiste em apresentar a inteligência artificial como inevitabilidade histórica. Mas nem tudo o que é tecnicamente possível é moralmente aceitável. A ausência de regulação séria não resulta de incapacidade técnica; resulta frequentemente de alinhamento político e económico entre centros de poder público e privado que veem na IA uma oportunidade única de influência transversal sobre todos os aspetos da vida humana. É precisamente aqui que Magnifica humanitas revela a sua importância. O texto não propõe uma rejeição da ciência nem uma nostalgia anti-tecnológica. Pelo contrário: pede discernimento, responsabilidade e centralidade da pessoa humana. Recorda-nos que o progresso só merece esse nome quando serve a dignidade humana e o bem comum. Num tempo em que as máquinas começam a decidir cada vez mais sobre a nossa vida, talvez a maior atualidade desta encíclica esteja numa ideia simples: a humanidade não pode entregar a sua consciência aos algoritmos.

Paulo Sousa

Paulo Sousa

31 maio 2026