Nesta fase do ano, enquanto muitas empresas iniciam preparação de balanços semestrais, escolas e clubes vivem tempos de avaliações finais. E há uma semelhança curiosa entre estas duas realidades: quem normalmente dá o melhor de si - professores e treinadores - acaba muitas vezes transformado em culpado, ou bode expiatório, daqueles que não conseguem assumir os próprios erros por incompetência, ou ausência de compromisso. A culpa - que nunca pode morrer solteira - está sempre nos outros: nos professores, nos treinadores e, em caso de necessidade extrema, nos assistentes operacionais e/ou nos árbitros.
Nas escolas, chega o momento em que muitos alunos se lembram de que precisam de determinada nota para manter ou melhorar a média e entrar no curso de sonho. Como os exames nacionais não permitem grandes atalhos, surgem as derradeiras tentativas de convencer os professores de méritos que ninguém conseguiu vislumbrar ao longo do ano - nem os próprios alunos. Quando isso falha, entram em ação alguns pais que, depois de meses afastados da vida escolar, aparecem subitamente como os encarregados de educação mais atentos, interventivos e preocupados. A pressão sobre os professores torna-se então um problema sério. Instala-se a ideia de que existe um “direito ao sucesso”, mesmo que para tal não tenha existido trabalho, estudo ou responsabilidade. E, quando o resultado não corresponde às expectativas, conclui-se rapidamente que o professor foi injusto ou que as diferentes lideranças da escola não deram o apoio suficiente.
Infelizmente, no desporto de formação acontece exatamente o mesmo. Quando o filho joga menos do que os pais (queriam ou) imaginavam, ou quando é dispensado nesta altura do ano, surgem reclamações, suspeitas e acusações. Raramente se aceita que o treinador possa ter razão, que existam colegas mais preparados ou até que a saída do clube possa ser a melhor solução para o futuro desportivo do atleta. Se nos alimentarmos constantemente de desculpas para justificar os insucessos, nunca perceberemos que temos um problema. E esse, como diria o mestre C’ajuda, tem sempre solução - desde que se reconheça a sua existência.
Acreditem: nem os professores perseguem alunos, nem os treinadores perseguem atletas. A maioria destes profissionais limita-se a desempenhar a sua função com seriedade, apesar da pressão crescente de uma sociedade cada vez menos tolerante à frustração.
Talvez o verdadeiro problema seja precisamente este: querer alcançar sucesso sem aceitar o esforço que ele exige. E, quando os resultados não aparecem, torna-se sempre mais fácil encontrar culpados do que assumir responsabilidades - pressionar professores e treinadores ao invés de reconhecer insuficiências, falta de compromisso ou paciência.
Mas nem a escola melhora com pressão sobre os professores, nem o desporto cresce alimentado por suspeitas e desculpas permanentes. Ambos precisam do mesmo: liderança séria, estabilidade, exigência, tempo e respeito.
Na escola e no desporto continua a existir uma verdade simples que muitos insistem em ignorar: a excelência continua a exigir trabalho árduo e a IA ainda não encontrou atalhos para isso.