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Pequim joga xadrez e a Europa assiste

Nas últimas semanas, vimos Pequim a jogar xadrez com aquelas que foram as duas maiores potências do século XX. Se os Estados Unidos continuam a ser a maior potência mundial, a Rússia é claramente subalterna à visão chinesa e apenas mantém lugar à mesa devido ao seu potencial nuclear. Pequim demonstrou que, perante a bazófia de um populista, a estratégia silenciosa consegue derrotar narrativas inteiras apenas com a saída de Putin do avião, desmontando muitas das afirmações de vitória que os Estados Unidos tentaram construir após a visita à China.

É importante referir que trocaria sempre a bazófia de Donald Trump, porque existe num país livre, pela inteligência chinesa que opera dentro de um regime totalitário. No entanto, o objetivo não é discutir se estamos ou não a assistir à queda dos Estados Unidos da América enquanto principal protagonista do xadrez político mundial. A pergunta que nós, europeus, devemos colocar é: onde estamos nós neste xadrez? Temos rainhas ou reis a jogar?

Existe uma sensação de orfandade perante os líderes europeus. Goste-se ou não da sua postura e do seu legado, Merkel e Draghi parecem ser dos últimos exemplares de um museu que deixou de inspirar uma geração de líderes assentes em valores humanistas e conscientes da responsabilidade cultural e política do velho continente. Esse sentimento de orfandade torna-se evidente quando, perante a necessidade de negociar com Putin, são precisamente essas figuras que surgem imediatamente no imaginário coletivo como referências capazes de assumir esse papel.

A verdade é que a Alemanha desapareceu politicamente após o fracasso estratégico da sua dependência energética da Rússia. Já a França parece perdida em discussões culturais internas e apenas produz líderes como Macron, que se transformam numa espécie de TikTok político para nostálgicos do velho republicanismo francês. Importa ainda salientar que, no meio de tudo isto, assistimos a um primeiro-ministro espanhol que utiliza a narrativa internacional para desviar atenções dos seus fracassos internos e dos casos graves que assolam o seu governo.

No meio deste cenário, há alguém que exibe a velha elegância europeia na forma de ser e de estar. Alguém em quem eu nunca votaria, por aquilo que disse e por parte do que continua a defender, mas que, para todos os efeitos, tem ocupado de forma estratégica, elegante e clássica o tabuleiro político: Meloni. Tem sido capaz de agradar e desagradar a Trump sem nunca ceder espaço nas suas ideias. Tem conseguido falar com protagonistas emergentes e essenciais para o comércio mundial, como a Índia e os países árabes e tem sido uma voz firme na defesa daquilo que acredita serem os interesses dos italianos. É curioso perceber como irritou Trump ao recusar o uso das bases italianas, estratégicas para um eventual ataque ao Irão. Mas também é curioso observar como não cedeu e se manteve firme perante um aliado que agora a trata com distanciamento.

Há qualquer coisa de característico na sua postura, algo que desperta simpatia e confiança na forma como exerce a política. Dá a sensação de fazer política como se ainda estivéssemos no apogeu do pós-queda do Muro de Berlim e isso torna-a diferente daquilo a que temos assistido. A República Italiana é um caos, sempre o foi, mas continua a ser capaz de produzir líderes.

Fazem falta à Europa líderes com estrutura, visão e densidade política. Precisamos de os voltar a encontrar. O avião de Trump aterra em Pequim, o de Putin também e a Europa fica sentada a ver os aviões passarem. Temos de repensar o nosso modelo europeu. Temos de recuperar, nos nossos valores, a capacidade de formar novos líderes. O centro europeu e liberal precisa disso. Eu já nem sei se ainda somos capazes.

Diogo Farinha

Diogo Farinha

28 maio 2026