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O meu S. João da Ponte

 

 

Estamos em cima das festas de S. João, de Braga. Adoro as festas que vêm dos tempos e criaram tradição. Vejo-as a encher as romarias, desde as pequenas de aldeia até às maiores como as Festas das Cruzes, de Barcelos, a dos Tabuleiros de Tomar, o S. Pedro da Póvoa de Varzim, e, é claro, o Nosso São João, de Braga. Amo-os porque me trazem dos passados esquecidos as lembranças dos tempos de menino que fazem de mim novamente menino. Mas este amor vai muito para lá duma lembrança porque é uma recordação; lembrar basta ter memória, recordar é preciso ter amado. O povo veste-se de seda ou cambraia como de burel ou linho. Os bombos em sons de baquetas possantes ou meiguices de caixa, os cabeçudos no seu grotesco insólito , as batalhas de flores em seus mimos de flores, as barracas com brinquedos sonhados, bancos corridos das tascas improvisadas, os coretos e as suas músicas que todos trauteávamos, os doces das regiões em despique de clientelas. E os desfiles de folclore… e, tudo isto está presente nas atuais festas tradicionais. Estiveram lá, e agora estão cá. E os carroceis, o poço da morte ou o comboio fantasma! Que susto desafiante. Não é preciso fazer qualquer evocação, basta pousar os olhos e logo a alma se enche de imagens do passado. E se o corpo não ajuda no baile de roda, giram os olhos aguados dos tempos em que o corpo obedecia ao esforço de dançarino. E os rosquilhos e as regueifas, e o doce da Teixeira em aromas que a pituitária traz ao paladar em elevador de consolo passado. E tudo está ali, como perto está o estralejar dos foguetes ou convidativo dos sons da concertinas dos cantadores ao desafio numa disputa mano-a-mano que todos aqueles que gostavam daquele improvisado entroncamento de rimas Era o povo genuíno que pagava repentinas e as promessas em velas, ou pernas, braços ou troncos feitos de cera, que são pagamentos ao santo milagreiro. Esta expressão de crença era tão ingénua como profunda porque assentava na fé e não apenas no paganismo do pagamento. Mas também é paga de palavra dada. Este povo que não se prende em lucubrações intelectuais, vive a tradição: é herança que vindo de muito longe reclamava uma recordação que tem o peso da saudade. E gosto de estar com esta dimensão de alma por que já não experimentamos os espantos de menino: fazem-me estar lá com outros olhos de ver e de sentir. O meu tambor é a escrita e sei que tem um som tão baixinho que poucos o ouvem. Se um velho já não pede porque a sua voz apenas balbucia, neste balbucio vai a minha esperança que nada mude no nosso S. João da Ponte, de Braga. Outros há que ganharam fama maior mas nunca como o de Braga porque é perfume que não perde fragrância com o tempo.

Paulo Fafe

Paulo Fafe

25 maio 2026