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Cipriano de Cartago foi um exemplo de preocupação pela unidade eclesial

 



 

Cipriano de Cartago. Quase de certeza todas as pessoas que leem esta rubrica já ouviram falar dele. Mas não só: sabem que ele foi uma pessoa muito preocupada com a unidade da Grande Igreja e não pensam que ele foi o autor do livro de ‘magia’ folclórica denominado de “O Grande Livro de São Cipriano”.

Quanto ao segundo aspeto antes apontado, não há nada a objetar. Deveras, tal título é atribuído a diversas obras, compostas entre os séc. XVII a XIX, que se dizem redigidas por um, historicamente inexistente, Cipriano de Antioquia (que teria falecido no começo do séc. IV).

Já quanto ao primeiro, a realidade é mais complexa, e só a muito custo pode ser dito que Cipriano de Cartago se preocupou exemplarmente com a unidade da Igreja. Sim: ele escreveu uma célebre obra denominada de “Acerca da Unidade da Igreja Católica”. Todavia, e em geral, a sua vida e escritos são menos um exemplo de “unidade” e mais um definir de limites acerca do que ele cria poder estar unido. Eis, assim, um mito que surgiu para ampliar a relevo de uma pessoa face a posições tidas como mais heterodoxas do que as defendidas por ele.

Com efeito, este bispo de Cartago, martirizado em 258 durante a perseguição ordenada pelo Imperador Romano Valeriano, envolveu-se em vacilantes opiniões acerca das pessoas que podiam ser, ou não, readmitidas na Grande Igreja depois de terem negado, de diversas formas e em momentos de perseguição, a fé batismal. Mais: ele questionou, com grande veemência, as aspirações de primazia do bispo de Roma (ou, pelo menos, a forma como esta foi veiculada). Em ambos os casos Cipriano não hesitou em romper a unidade com Roma.

Acerca da readmissão na Igreja de quem tinha negado a fé, ele defendeu que, quem fora batizado por quem não estava em comunhão com a Igreja (especialmente algumas fações que, tendo inicialmente ministros retamente batizados, não aceitavam tal readmissão), precisava de ser rebatizado. Isto ia contra a teologia de Roma, que aceitava tal readmissão desde que o Batismo tivesse sido realizado usando-se a formulação correta para o mesmo.

De facto, a Grande Igreja em Roma acreditava não ser a “dona” dos sacramentos, mas apenas a sua “administradora”, e que a eficácia dos mesmos provinha, não dos ministros em si mesmos, mas de Cristo, e que, assim, o uso correto da formulação sacramental bastava para que eles fossem fecundos em quem as recebia. Eis a origem de um cisma que perdurará.

Este embate entre o bispo Cipriano de Cartago e o bispo Estevão I de Roma chegou ao ponto de este último não hesitar chamar a Cipriano, e segundo este mesmo (ler a sua epístola n.º 74 do ano de 256), de «falso Cristo» e «falso apóstolo». Por sua vez, Cipriano e nessa mesma carta, apodou Estevão de «defensor de heréticos», «presunçoso» e “incompetente”.

acerca da Primazia do Bispo de Roma sobre as demais comunidades da Grande Igreja, Cipriano rejeitou que tal Bispo: pudesse legislar sobre os usos e costumes doutros locais, mais ainda quando agindo com um «terror tirânico»; fosse o “único sucessor Pedro” se isto se estendesse além de ser um sinal de unidade de todos os Apóstolos / Bispos legítimos. A “Cátedra de Pedro” era só Roma – certo –, mas pertencia em igualdade a todos esses bispos.



 

Alexandre Freire Duarte

Alexandre Freire Duarte

24 maio 2026