1. Escrevo para dizer o que penso e não com o propósito de agradar seja a quem for. Não escrevo por encomenda. Porque assim é, atrevo-me a dizer que, em minha opinião, o futebol profissional está sobrevalorizado. Tem ocupado, não de agora mas desde há anos para cá, um lugar que lhe não compete no que penso ser uma correta escala de valores. E se é verdade haver pessoas que – perante o ordenamento jurídico, muito legitimamente, – dele fazem profissão, convertendo-o numa (rica) fonte de receita para si e para os seus, para o comum das pessoas não deveria passar de mais um hobby.
2. Remando contra certa maré, pertenço ao grupo dos que vêem no futebol um desporto entre os mais. Um divertimento e não a ocupação principal. Uma forma de passar os tempos livres e, para quem o pratica, de fazer exercício físico. Discordo da existência do futebol profissional. É uma opinião. A minha opinião.
3. Porque o futebol está sobrevalorizado, movimenta milhões de euros, não sei se sempre com a transparência desejável e com o devido contributo para o erário público, mediante uma justa tributação.
Porque o futebol, em minha opinião, não deve ocupar o primeiro lugar na vida do comum das pessoas, não me parece correcto que, por causa do futebol, se falte ao trabalho, se alterem os normais horários de trabalho, com ele se gastem dinheiros que, numa correcta gestão dos bens, talvez devessem ser canalizados para a satisfação de outras necessidades.
E quando estes exemplos vêm de gente de cima... Se para o futebol profissional se canalizam vultuosos dinheiros públicos…
4. Há futebol em excesso em diversos Meios de Comunicação Social não especializados. Penso que serviriam melhor a comunidade diversificando mais os conteúdos e contribuindo para que o futebol seja mais diversão e menos alienação.
Não me parece bem que, em alguns ambientes, o futebol seja praticamente o único tema de conversa, como se não houvesse mais nada com que nos preocuparmos e em que centrarmos a atenção.
5. Confesso: gosto que o Vitória de Guimarães ganhe. Mas as suas derrotas não me tiram o sono. Se o horário dos jogos transmitidos por rádio ou televisão colidir com os meus planos, primeiro estão estes. Depois sei o resultado.
Confesso, também, que o único recinto onde o vi jogar algumas vezes, em Guimarães, foi o Campo da Amorosa.
Há várias décadas que não assisto a um jogo de futebol ao vivo. O último foi um Braga-Sporting, no então estádio 28 de Maio. E não me sinto menos por causa disso. Mas aceito e compreendo que outros pensem e procedam de modo diferente. Cada um é cada um e tem, como dizem os nossos vizinhos espanhóis, as suas cadaunadas.
6. O futebol profissional, de alta competição, converteu-se numa das idolatrias dos tempos modernos. Há futebolistas olhados como autênticos ídolos e não deixam de tirar partido desse endeusamento.
E também aqui há quem ponha a «devoção» acima da obrigação. Há quem deixe de fazer o que deve – contribuindo, assim, para a deseducação da gente nova – para fazer o que lhe apetece.
7. Mens sana in corpore sano, dizia-se noutros tempos. Que o desporto contribua para a existência de um espírito são num corpo são. Que contribua para a dignificação da pessoa. Que seja uma verdadeira escola de valores.
Sei haver muitos indivíduos que já o encaram assim. Louvo-os por isso. Todavia, pelo que se vê, é necessário, noutros, uma grande mudança de comportamento.
Para que o desporto seja praticado com desportivismo. Para que nas decisões que a prática desportiva implica se actue sempre com a máxima justiça. Para que quem assiste ao espectáculo em que o futebol se converteu saiba aceitar que os outros sejam mais capazes, saiba aplaudir os que realmente são melhores, saiba ser compreensivo para com as limitações dos intervenientes, saiba discordar sem chamar nomes e sem insultar.
Mas se até o autêntico espírito olímpico já foi desvirtuado…