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Bracari em festa e os Castros abandonados

Entre os dias 20 e 24 de maio, Braga acolhe a Braga Romana, um dos maiores eventos de recriação histórica do país e uma iniciativa que mobiliza milhares de visitantes, associações, escolas e agentes culturais. Trata-se de um evento relevante, que tem contribuído para afirmar Braga como herdeira da antiga Bracara Augusta e como destino turístico associado ao património e à memória histórica.

Este ano, a organização decidiu dar destaque às origens pré-romanas, evocando os modos de vida dos Bracari e promovendo, inclusivamente, visitas à Citânia de Briteiros, em Guimarães. A intenção merece reconhecimento. Contudo, esta opção levanta uma questão incontornável: que política tem sido seguida pelo Município de Braga relativamente ao património castrejo existente no seu próprio território?

É difícil compreender que, ao mesmo tempo que se procura valorizar a herança dos povos pré-romanos através de referências exteriores ao concelho, permaneçam praticamente esquecidos os castros da Idade do Ferro existentes em Braga.

O concelho possui, pelo menos, catorze povoados castrejos identificados. Falamos de lugares que testemunham formas de organização social, ocupação do território, práticas defensivas e modos de vida anteriores à romanização. É património que ajuda a compreender quem éramos antes de sermos Bracara Augusta. No entanto, estes sítios não têm merecido uma estratégia municipal consistente de estudo, salvaguarda e valorização.

Em vários casos, a ausência de investimento é evidente. Nos castros do Monte Redondo, de Santa Marta das Cortiças, do Monte das Caldas e noutros sítios arqueológicos, não existe sequer sinalética oficial interpretativa que permita aos visitantes perceber a importância histórica daqueles espaços. Também o Balneário Pré-Romano da estação de Caminhos de Ferro está ali, como que perdido, sem entrar nas contas da programação, deste ano, da Braga Romana. Muitos cidadãos passam por estes locais sem qualquer consciência do valor patrimonial que encerram.

Braga conheceu episódios difíceis de esquecer, como a destruição do Castro Máximo, que independentemente das circunstâncias e dos contextos de decisão, esse episódio permanece como um sinal preocupante da fragilidade com que, por vezes, se encara o património arqueológico.

Atualmente, o Monte de Santa Catarina, em Santa Lucrécia de Algeriz, encontra-se a beneficiar de um arranjo paisagístico destinado a melhorar as condições de fruição do espaço. A intervenção é positiva e merece destaque. Porém, perde-se novamente uma oportunidade importante: a de compatibilizar a requalificação com a valorização dos vestígios arqueológicos ali exumados.

A valorização patrimonial não deve ser vista como um obstáculo ao ordenamento ou à qualificação do território. Pelo contrário, pode e deve funcionar como fator diferenciador. Integrar os vestígios arqueológicos no desenho do espaço, criar percursos interpretativos, instalar painéis explicativos ou recorrer a soluções digitais e pedagógicas enriqueceria o monte, reforçando a sua identidade e promovendo conhecimento histórico.

É precisamente aqui que importa refletir sobre o papel de eventos como a Braga Romana.

A recriação histórica tem valor cultural e turístico, mas não pode limitar-se à componente cénica ou festiva. Deve ser também um instrumento pedagógico e uma oportunidade de aproximação ao património real, existente e visitável. Celebrar os Bracari apenas através de figurinos ou encenações, sem investir nos lugares onde efetivamente viveram, corre o risco de transformar a História em mera decoração temática.

Os Vereadores ASB entendem que pode existir uma verdadeira rede municipal de castros, articulando investigação arqueológica, conservação, percursos pedestres, programas educativos e promoção turística integrada. Podem nascer roteiros da Idade do Ferro capazes de complementar a narrativa romana e de diversificar a oferta patrimonial do concelho.

O turismo cultural contemporâneo procura autenticidade, contexto e experiência. Quem visita Braga não procura apenas monumentos; procura compreender a longa construção histórica do território. E essa história não começa com Roma.

A Braga Romana continuará, certamente, a ser um motivo de orgulho coletivo. Mas esta edição, ao olhar para os Bracari, recorda-nos algo essencial: não basta evocar o passado; é necessário preservá-lo, explicá-lo e valorizá-lo no território onde ele ainda subsiste.

Braga merece uma política patrimonial mais ambiciosa, capaz de olhar para as heranças históricas como ativos culturais, educativos e turísticos de enorme potencial. Porque proteger a História não é viver do passado — é investir para que, no futuro, seja conhecida e compreendida.

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Ricardo Silva

21 maio 2026