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IA e o valor insubstituível do humano

A inteligência artificial entrou definitivamente no quotidiano das sociedades modernas. Nas escolas, nos hospitais, nos escritórios, nas empresas e até nas famílias, multiplicam-se ferramentas capazes de escrever textos, interpretar dados, criar imagens, responder a perguntas e automatizar tarefas. Para muitos, esta revolução tecnológica representa uma ameaça direta ao trabalho humano. O receio é compreensível: será a máquina capaz de substituir médicos, professores, advogados, jornalistas, engenheiros ou até sacerdotes?

O debate atual sofre frequentemente de um equívoco perigoso. Confunde-se velocidade com inteligência, automatização com sabedoria e produção técnica com responsabilidade humana. Os sistemas de IA generativa, como os grandes modelos de linguagem, impressionam pela rapidez e pela aparência de competência. Em segundos, conseguem redigir relatórios, resumir documentos, sugerir diagnósticos preliminares, elaborar planos financeiros ou produzir análises complexas.

Mas há uma diferença fundamental entre gerar respostas e compreender verdadeiramente a realidade. A IA não possui consciência, prudência moral, empatia, experiência vivida ou responsabilidade ética. Funciona por cálculo probabilístico. Organiza padrões encontrados em enormes volumes de informação e produz respostas plausíveis. Contudo, plausibilidade não significa verdade, justiça ou prudência.

O americano Geoffrey Hinton, considerado um dos “pais” da inteligência artificial moderna, quando saiu da Google alertou para o facto dos chatbots poderem deixar, no futuro, de complementar o trabalho dos humanos para os substituírem, mas insiste que o ser humano não pode abdicar do controlo ético e crítico sobre as decisões relevantes. Uma regulamentação mundial impõe-se. 

Eric Topol, um dos maiores especialistas mundiais em inteligência artificial aplicada à medicina, defende que a IA deve libertar os médicos de tarefas burocráticas para reforçar aquilo que nenhuma máquina consegue oferecer: atenção humana, empatia, capacidade de ouvir e julgamento clínico. Segundo Topol, a IA pode devolver humanidade à medicina, porque permite ao médico concentrar-se mais no doente e menos na papelada.

No Reino Unido, Mustafa Suleyman, cofundador da DeepMind, sublinha que a inteligência artificial deve ser encarada como uma ferramenta de amplificação das capacidades humanas e não como substituta da pessoa. O verdadeiro valor económico e social continuará a residir na criatividade, no discernimento e na confiança humana.

Esta reflexão aplica-se praticamente a todas as profissões.

Na educação, a IA pode ajudar professores a preparar materiais, adaptar exercícios ou acompanhar dificuldades dos alunos. Mas jamais substituirá a autoridade moral do educador, a inspiração transmitida pelo exemplo ou a capacidade de formar carácter.

Na medicina, poderá analisar exames com enorme precisão, identificar padrões invisíveis ao olhar humano e acelerar diagnósticos. Contudo, nenhuma máquina comunica esperança a um doente terminal, conforta uma família angustiada ou assume a responsabilidade moral de uma decisão clínica delicada.

No jornalismo, a IA consegue resumir informação e organizar dados. Mas não substitui o olhar crítico do jornalista, a investigação séria, a sensibilidade cultural nem o compromisso com a verdade.

Na advocacia, como em tantas outras áreas, a tecnologia pode acelerar pesquisa, organizar informação e apoiar tarefas técnicas. Porém, o discernimento estratégico, a interpretação humana da justiça e a responsabilidade profissional continuam a depender da experiência e da consciência do advogado.

A própria Igreja Católica tem acompanhado este debate com atenção crescente. O Papa Leão XIV tem insistido na necessidade de colocar a dignidade humana no centro do desenvolvimento e “Magnifica humanitas” é o título da sua primeira encíclica, prevista para o próximo dia 25 de maio, sobre a salvaguarda da pessoa humana na era da Inteligência Artificial.

A IA é uma ferramenta extraordinária nas mãos de profissionais competentes e eticamente preparados. Poderá aumentar produtividade, democratizar conhecimento e melhorar serviços. Mas também poderá amplificar erros, manipulações e injustiças quando utilizada sem discernimento.

O futuro não deve pertencer às máquinas nem aos que recusam a tecnologia. Pertence aos homens e mulheres capazes de unir competência técnica, inteligência crítica e valores humanos sólidos.

Carlos Vilas Boas

Carlos Vilas Boas

21 maio 2026