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OS DIAS DA SEMANA O pedido de perdão ao povo palestiniano

 

 


 


 

David Neuhaus é um padre jesuíta que vive em Jerusalém. Superior dos Jesuítas da Terra Santa, nasceu em 1962 no seio de uma família judia que tinha ido para a África do Sul para fugir do nazismo. Judeu, também ele, David Neuhaus converter-se-ia ao cristianismo em Israel, para onde foi viver com quinze anos de idade. Anne Waeles entrevistou-o para o número de Maio da revista francesa Le Cri. A afirmação citada no título é deveras eloquente: “Daqui por cinquenta anos iremos pedir perdão ao povo palestiniano, tal como pedimos perdão ao povo judeu depois da Shoah”. A afirmação do padre jesuíta estabelece a dimensão do crime que Israel está a cometer.

O professor de Ciências Bíblicas em várias universidades de Belém e Jerusalém possui uma visão clara da tragédia que ocorre no Médio Oriente: “Não tenho nada contra o facto de um judeu vir viver para a Palestina por sentir uma ligação a esta terra. Mas a Palestina tem a sua cultura, a sua língua, a sua história. Os judeus vieram para aqui durante séculos. Aprenderam árabe e integraram-se numa sociedade composta de muçulmanos, judeus e cristãos”. O que agora sucede, acrescenta David Neuhaus, é que “o colono sionista vem substituir esta sociedade e criar um Estado judeu”. A pretensa solução contra o anti-semitismo que daqui recorre é, tal como explica o padre jesuíta, “a criação de um Estado etnocêntrico e racista, que estabelece um regime de discriminação, de ocupação e, finalmente, de genocídio”.

“Daqui por cinquenta anos iremos pedir perdão ao povo palestiniano, tal como pedimos perdão ao povo judeu depois da Shoah por causa do nosso silêncio e da nossa cumplicidade”, afirma David Neuhaus, recordando que o Papa Francisco não se calou. Apesar do manifesto incómodo que suscitou nos que, em Israel, “confundem o Estado hebreu com o povo judeu, confusão que é o objectivo dos responsáveis israelitas”. Defender a vida dos palestinianos não é, de facto, ser anti-semita.

De resto, para David Neuhaus, “a luta contra o anti-semitismo e a crítica do sionismo vão a par”. O padre jesuíta constata que “os sionistas não combatem o anti-semitismo, já que, sem ele, os judeus não emigrariam para Israel”. Daí que, como David Neuhaus nota, Benjamin Netanyahu não hesite em aliar-se a anti-semitas como Viktor Orbán. “O que os liga é, desde logo, o ódio aos muçulmanos, mas também a ideia de que os judeus não pertencem aos países em que vivem, razão por que devem regressar a Israel”.

David Neuhaus indica qual o bom combate: “A luta contra o anti-semitismo inclui a luta contra o sionismo, a islamofobia, o racismo e todas as construções ideológicas que se manifestam em profunda aliança”.

Os “sionistas cristãos” que defendem o Estado de Israel contra qualquer crítica, designadamente depois do genocídio em Gaza, deixam-se enganar pelos que pretendem dividir os cristãos e os muçulmanos palestinianos, afirma ainda o professor de Ciências Bíblicas.

Também os católicos têm, aliás, estado na mira da extrema-direita israelita com a complacência ou o incentivo dos seus dirigentes, Benjamin Netanyahu, Itamar Ben-Gvir e Bezalel Smotrich.

O abade Nikodemus Schnabel, um beneditino nascido na Alemanha, responsável pela Basílica da Dormição, no Monte Sião, em Jerusalém, onde, segundo a tradição, a Virgem Maria adormeceu, falava há dias da iminência do colapso cristão na Terra Santa.

A comunidade cristã está ameaçada e “o elemento mais preocupante vem das altas esferas da liderança israelita”, disse ele, há dias, ao Asia News [1]. Pela primeira vez, na cúpula do poder, há pessoas “que odeiam cristãos”, e isso é “um facto bem conhecido”.

O responsável pela Basílica da Dormição refere que têm sido crescentes os ataques de judeus à minoria cristã. Ela tem sido alvo dos militares no sul do Líbano e dos ultraortodoxos e colonos em Israel, especialmente na região de Jerusalém. O violento ataque a uma freira, o cuspir nas portas da catedral arménia ou a profanação de símbolos religiosos são exemplos comuns do ódio aos cristãos e aos seus símbolos. O aumento dos ataques é confirmado pelos números, que dão conta de um aumento de 63% dos actos hostis contra cristãos em Israel em 2025.

Nikodemus Schnabel já foi também agredido e cuspido por extremistas judeus. E, agora, pessoas como as que lhe cuspiram fazem parte do governo israelita. O abade recorda o ataque à Igreja de Tabgha, junto ao mar da Galileia, onde Jesus Cristo fez o milagre da multiplicação dos pães e dos peixes. A Igreja foi incendiada há onze anos. O advogado que defendeu os incendiários foi Itamar Ben-Gvir, que é presentemente ministro da Segurança Nacional. “Este homem, que odeia cristãos, que realmente odeia o cristianismo, é hoje o responsável pela minha segurança, testemunha Nikodemus Schnabel. “E isso é algo verdadeiramente horrível e incrível”.

Incrível, mesmo. E terrível. Uma sociedade em que muçulmanos, judeus e cristãos coexistam pacificamente não se avista no horizonte.


 


 

[1] Dario Salvi – “Abad de la Dormición: el odio contra los cristianos ha sido tolerado durante mucho tiempo por las altas esferas en Israel”. Asia News, 7 de Maio de 2026

Eduardo Jorge Madureira Lopes

Eduardo Jorge Madureira Lopes

17 maio 2026