twitter

Só no Século IV se passou a refletir sobre a vida íntima da Trindade

 



 

Eis outro mito que, apontando para o Século IV (justamente apodado de “O Século de Constantino”), quer referir que foi por influência deste Imperador que, desejando ele impor a doutrina da Trindade, os cristãos passaram a cogitar como seria a vida Trinitária em si mesma.

Deixemos bem claro que já no Novo Testamento a doutrina da Trindade já surge esboçada nos seus elementos fundamentais: Deus é um só Ser com, se assim o pudermos dizer, três centros inter-autónomos de consciência pessoal: o Filho (incarnado) tem consciência de ser Quem é e, correlativamente, de ser distinto do Pai e do Espírito Santo (o «outro Paráclito» de Jo. 14,16).

A mencionada relação entre monoteísmo e a realidade dos referidos três centros de consciência (que leva à constatação de que o monoteísmo cristão é um monoteísmo qualificado e mais pleno por não ser apenas numérico, mas de vida) surge de modo preclaro na fórmula batismal de Mt. 28,16: «batizando-os em Nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo». Note-se que “nome” aponta para “YHWH” (e mais tarde para “natureza de Deus”) e com os dois “e”s a vincarem que YHWH é Pai e Filho e Espírito Santo.

Todavia, este esboço e os imediatamente subsequentes (quer no séc. I, quer em grande parte do séc. II) estão mais focados na relação salvífica entre Deus e a criação e/ou a humanidade, e não tanto na realidade de Deus-Amor em Si. Para se encontrarem expressões desta realidade de uma Trindade eterna, devemos esperar mais tempo, mas não até ao Século IV.

Na obra “Contra Noeto” (de Esmirna) tenta-se dar um salto para esse patamar, mas é ainda um intento muito incipiente. Diga-se que aquela obra é um dos textos atribuídos à tri-enigmática figura de Hipólito (pois ter-se-á fundido numa só identidade três pessoas), sendo, assim, de difícil datação (eu atrever-me-ia a dizer que será da primeira década do séc. III).

Mais firme é Tertuliano de Cartago na obra “Contra Praxeas” (da Anatólia) escrita na segunda década desse mesmo Século. Vejamos duas expressões retiradas, respetivamente, do capítulo 12 e do capítulo 25 desse texto. A primeira diz: «uma única substância em três [Pessoas (palavra exigida pelo contexto)] coerentes e inseparáveis». A segunda refere: «a união do Pai no Filho e do Filho no Paráclito dá origem a Três Pessoas coerentes, que são, no entanto, distintas umas das outras. Estas Três [Pessoas] são uma única essência».

Como vemos, em Tertuliano já encontramos o embrião do que hoje qualquer cristão afirma acerca de Deus-Amor: “Deus é uma natureza (que subsiste) em três Pessoas”. E mesmo que, em abono da verdade, se possa admitir que este autor não aceite que o Filho (e inerentemente o Espírito) seja tão Deus como o Pai, é ainda na sétima década do Século III que encontramos um Gregório Taumaturgo que não permite qualquer dúvida sobre isso.

Deveras, e na sua breve “Declaração de Fé”, Gregório afirma a perfeita igualdade de natureza entre as três Pessoas Divinas. Citaremos aqui o essencial desse texto para negarmos o mito que está a ser considerado: «existe um só Deus. Este é um só Pai (…). Este é um só Senhor (…) verdadeiro Filho (…) Deus de Deus (…). Este é um só Espírito Santo, que tem a substância de Deus (…). Uma perfeita Trindade em glória e eternidade (…) não faltando nada ao Filho do Pai e nada ao Espírito Santo do Filho (…), sendo Eles uma Trindade eterna sem mutação».



 

Alexandre Freire Duarte

Alexandre Freire Duarte

17 maio 2026