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Uma sociedade doente ou um sistema educativo à deriva

 


 

 


 

Uma notícia publicada, há dias, no Jornal de Notícias (JN) chocou-me fortemente. Como docente aposentado não posso ficar de braços cruzados a assistir a este cenário de irracionalidade e a este desastre de excessiva perda de autoridade que está a atingir a Escola Pública. Hoje, qualquer papá ou mamã sente-se no direito de perturbar o funcionamento normal das actividades lectivas. Por coisas insignificantes que, muitas vezes, não passam de abordagens positivas para o aluno despertar para a realidade das boas aprendizagens. Esses “procedimentos” causam dissabores suficientes em todo o corpo docente. E sem ganhos para ninguém. Melhor, com perdas significativas para a estabilidade da Escola, para o apego e interesse do professor no trabalho que faz, para a responsabilidade precoce do aluno e para a boa imagem da Educação.


 

1 - Hoje, o professor lida com alunos demasiado mimados e com pais extremamente zangados. Zangados com a vida, com o emprego, com a família, enfim, com todo o mundo. Pais ausentes de todo o processo educativo, mas muito receptivos para dar guarida aos insucessos e à indisciplina dos seus filhos. Alunos (sem generalizar, claro) bem mais motivados para bulirem nas redes sociais e aí depositarem todas as frustrações que semeiam no dia-a-dia. Esta mistura tóxica, de fraca apetência pela Escola e com pais pouco envolvidos no acompanhamento diário dos seus educandos, favorece um clima escolar de medo, de perplexidade e de insegurança. É sabido que muitos professores estão desejosos de abandonar a Escola o mais rapidamente possível. Ninguém está para aturar esta Escola bizarra, burocrática, nem tampouco se consumir com alunos que não querem aprender e que só causam problemas. 

A Escola Pública precisa de fazer um pacto social, estabelecer regras bem definidas, onde a autoridade dos professores seja garantida e protegida e a responsabilização dos alunos e dos pais seja, de forma idêntica, um contributo activo para o sucesso e bem-estar da Escola.


 

2 - Na Escola Privada, os absurdos de intromissão abusiva dos pais não é sentida com tanta frequência, porque os pais sabem bem as linhas que cose o sistema privado. Quando acontecem situações anormais, a Escola age, os pais são avisados e os alunos responsabilizados. Tem que haver consequências para falhas graves. Não é por acaso que a Escola Privada está cheia de alunos e funciona com toda a normalidade.


 

3 - Vamos, então, à notícia do JN. “Conceição Alves é professora do 1.º Ciclo há quase 40 anos. No ano lectivo passado foi alvo de um processo disciplinar. Em Outubro de 2024, a mãe de um aluno denunciou à Direcção do Agrupamento que a docente chamou “queixinhas” ao filho. O despacho de arquivamento foi assinado seis meses depois, após os factos não terem sido provados. Mas, a professora foi suspensa logo a seguir à reclamação e impedida de ir à Escola, até para buscar os seus pertences. Foi à Junta Médica em Abril de 2025, dada como apta para o serviço e, ainda assim, quando se apresentou ao serviço, foi “intimada” pela Directora a ficar de baixa até ao fim do ano lectivo”. Este exemplo é categórico da falta de autoridade da Escola Pública. Uma abordagem perfeitamente banal, “queixinhas”, insignificante mesmo e absurda a causar este sarilho de processo disciplinar a uma docente e a pôr toda a Escola apreensiva, medrosa e sem possibilidades de dar uma resposta clara e convincente, logo que a denúncia chegou ao Agrupamento. Este caso e tantos outros representam a falta de autoridade de um executivo que, por tibieza, até, por cobardia desresponsabilizou-se, sacrificando 40 anos de serviço da docente com todas as consequências morais e psicológicas que o processo arrasta. Esta “brincadeira” de mau gosto não é caso único. A Inspecção-Geral da Educação instaurou, desde Janeiro de 2021, 824 processos a professores e a Directores e muitos por coisas verdadeiramente ridículas do género o professor falar um pouco mais alto. 


 

4 - Como é possível perceber e aceitar que uma professora, por dizer que um aluno “seu” é “queixinhas”, ser motivo de um processo disciplinar? A Escola Pública tem que se defender destes absurdos. É tempo de parar com estas “denúncias torpes”. É tempo da Escola dar importância à Educação, de respeitar os seus servidores e de olhar para a qualidade do ensino como garante de bom futuro. Assim, com “queixinhas” dos papás a Educação não vai lá!


 

Armindo Oliveira

Armindo Oliveira

17 maio 2026