Num artigo publicado no Observador a 13 de maio, intitulado “Braga: o Portugal que podemos construir”, o presidente da Câmara de Braga, João Rodrigues, descreveu uma cidade dinâmica, industrial, inovadora e tecnologicamente qualificada.
Contudo existe um “mas”.
Braga não recebe investimento público transformador relevante do Estado central desde 2011, ano da inauguração do Hospital de Braga.
Apesar disso, consolidou-se como um dos principais motores económicos do país. O eixo Braga–Guimarães–Famalicão concentra mais de meio milhão de habitantes, cerca de 67 mil empresas e aproximadamente 4% do PIB nacional. Braga representa mais de 2,8 mil milhões de euros em exportações anuais e tornou-se o terceiro concelho mais exportador de Portugal.
Entre 2013 e 2024, as exportações cresceram cerca de 289%, muito acima da média nacional. Empresas ligadas à indústria automóvel, eletrónica, metalomecânica, software e engenharia exportam diariamente para alguns dos mercados mais exigentes. A presença da Bosch, do INL e da Universidade do Minho ajudou a consolidar um ecossistema económico competitivo.
Mas este crescimento não foi acompanhado por investimento estruturante do Estado central.
Lisboa e Porto vivem uma realidade diferente.
No passado dia 12 de maio, o primeiro-ministro Luís Montenegro reuniu-se com os presidentes das câmaras de Lisboa e Porto. Dessa reunião saíram compromissos: no Porto uma nova circular externa para aliviar a VCI, estudos para um sistema complementar de transporte público ao Metro, para Lisboa a transferência gratuita do edifício da antiga Presidência do Conselho de Ministros para a Câmara de Lisboa, permitindo criar habitação acessível para professores, médicos e bombeiros e para ambas as cidades o reforço na área de segurança com a distribuição de 200 efectivos da PSP para cada Comando Metropolitano.
Nada disto é ilegítimo. O problema começa quando regiões economicamente decisivas continuam excluídas da mesma visão estratégica do Estado. Braga cresceu em população, empresas, inovação e exportações, mas as infraestruturas não acompanharam esse crescimento.
O resultado está à vista: congestionamento crescente, acessibilidades saturadas e pressão sobre a habitação. A recente promessa de investimento na Circular Externa de Braga é positiva, mas insuficiente para recuperar décadas de atraso acumulado. E se for como as várias promessas da resolução do Nó de Infias aos longo dos últimos anos, estamos perante mais um vazio de soluções.
Os Transportes Urbanos de Braga movimentam milhões de passageiros por ano num território cuja infraestrutura rodoviária e ferroviária opera perto do limite. Apesar disso, nunca existiu um estudo sério para um sistema de transporte público estruturante como um metro de superfície.
Braga não está a pedir privilégios. Está a exigir proporcionalidade.
Uma região que contribui decisivamente para as exportações nacionais e para a criação de emprego qualificado não pode continuar a ser tratada como periferia administrativa.
O desafio exige visão regional e capacidade política para romper com um modelo excessivamente concentrado entre Lisboa e, em menor escala, o Porto.
Portugal habituou-se a exigir produtividade ao Minho enquanto concentra investimento onde a pressão política e mediática é maior.
Quando o Estado continua a adiar Braga, não está apenas a falhar com o Minho. Está a limitar uma das regiões que mais contribui para o crescimento económico do país. E enquanto Braga não tiver uma voz política forte e coesa junto do poder central, este desequilíbrio continuará.