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ECOS DO NOSSO MUNDO Ecce homo, anjo meu!

 


 


 


 

Afirmei um dia que “os sonhos nocturnos” são como o vento: mal se sabe donde vêm nem o que pretendem. Mas todos os sonhos são lícitos, se for para avançar, crescer e tornar os outros felizes. Não sendo assim, são fantasia ou frustração”.

E um dia destes, tive um sonho invulgar!

Uma voz (alguém) me chamou e convidou para um passeio.

Não ofereci resistência, fui.

Respondendo várias vezes “sim, já vou”, senti-me a levitar. Subindo, subindo sempre, pude apreciar as torres das cidades, igrejas monumentais, o verde e o loiro da natureza e verifiquei que a paisagem, vista do alto, é um espectáculo sem igual!

Continuando a subir, vi o mar, esse “chão azul” sem igual, bem como os golfinhos a respirar. De seguida, entrei por sobre as nuvens e concluí que me dirigia para oriente, revendo a África, essa estouvada e sedutora terra que hipnotiza até, os que nunca tiveram alma cigana.

Por fim, já bem alto, levitando pelos céus sem fim, alguém, de tapete branco nas mãos, obrigou-me a parar e, segurando-me, disse:

-Vais na direcção do Reino dos Céus. Como te justificas para transpor a Divina Porta?

- Bom, Anjo meu. Não estava nos meus planos encontrar-me contigo tão cedo. Uma vez que assim é e para trás não se pode voltar, muito posso contar e pouco me posso justificar.

- Devo dizer-te Anjo meu, que a minha infância foi desprovida de suficientes agasalhos e a qualidade era precária. De alimentos, saboreei alguma mercearia, e as quantidades ainda hoje, penso que eram insuficientes. Daí, ter tido o desejo de roubar algo mais para comer. E devo confessar-te também, que muitas vezes senti desejos de uma banana ou de um naco de carne e, possível, só em dias de festa.

- Cresci na confusão e no labirinto de homens velhacos e loucos. Certos meninos, batiam-me porque eram ricos ou mais robustos que eu. Os adultos reprimiam-me, porque tudo era mal feito, queixavam-se; como adolescente, fui traquina, teimoso e, sempre em desfavor dos companheiros, perspicaz.

- Como jovem e a caminho de adulto, namorei imenso, amei pouco e menti muito mais; fui calculista, estoira-vergas, malicioso, e pratiquei a maledicência, principalmente contra os “escolhidos” pelo meu Senhor.

– Também Anjo meu participei numa guerra, não como mercenário - que são a diarreia dos prepotentes - mas obrigado. Embora não visse sentido nessa guerra e tão distante do meu país, como autoridade no terreno, nem sempre fui justo e nem sempre obedeci.

- Esbanjei sem tréguas e sem necessidade forças físicas e, fui por vezes desinteressado dos problemas, das lágrimas e da fome dos outros. Nessa guerra, talvez tenha matado, uma vez que os homens que me estavam confiados apareciam mortos também.

- A seguir, Anjo meu, duvidei dos meus familiares, dos meus amigos, de quase todos os homens, tornei-me individualista e perdi a Fé!

- Ultimamente, paciente Anjo, andava a sentir-me confuso e com medo de todos: uns, porque não cumpriam - nem cumprem ainda hoje - os direitos dos homens; não sentiam - nem sentem ainda - respeito e amor pela humanidade. Existe a guerra do Putin, do Netanyahu e do Trump, na Terra. Outros roubavam – e roubam –; eram e são mentirosos; há os falhados que tudo sugam e há traidores e imbecis.

- E ainda conheci e conheço os burocratas, os madraços, os cobardes, os homens de alma desabitada, os perversos e tantos outros que brincam com a saúde e com os direitos daqueles que estão permanentemente sob a alça do seu (deles) ponto-de-mira.

–Assim, Anjo meu – paciente Anjo – também fui vítima de muitos: roubado no “Ter” e no “Ser”. Fui excluído da cultura, da educação e, de certo modo, das profissões que sonhei ter, entre outras coisas.

- Desta forma me moldaram e me trataram os homens que vivem lá em baixo! Finalmente, Anjo do meu Senhor, queria afirmar-te que, na vida, sempre caminhei devagar, é certo, mas nunca parei. Andei sempre atento, rindo e chorando, mas sem nunca negar ou trair o meu país como alguns fizeram e disso hoje se ufanam.

- Ultimamente procurei conhecer melhor o meu Deus e, fruto desses conhecimentos, vi as asneiras feitas e vi o bem que não fiz. Pelo que depois, dei-me aos outros sem olhar a classes ou raças: dos que tive conhecimento e soube estarem moribundos, a quase todos visitei; sempre que vi necessário, dei algum do meu pão; quando se juntaram dois fatos no armário e um ficou disponível, coloquei-o aos ombros do nu.

- Portanto, Anjo que me segues e interrogas, assim me apresento ao meu Senhor, que nestes últimos anos segui, servi e amei com todas as forças dos meus membros, com todo o sangue das minhas veias e com toda a força da minha capacidade intelectual.

- Que o Imperador do Céu e da Terra – continuei – me não veja como muito imperfeito, mas sofredor também e que Sua Mãe interfira, de forma que premeie este débil, mas convicto seguidor.

Ecce homo, Anjo meu!

- Bom, caro peregrino dos mares e dos céus – interrompeu o Alguém do Tapete branco. Por mim, julgo-te justificado e aproxima-te da Porta que pretendes, pois...

E com esta última palavra “pois”, do Anjo meu, acordei e foi maravilhoso ter acordado a sorrir.


 

(O autor não segue o acordo ortográfico de 1990)

Artur Soares

Artur Soares

17 maio 2026