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Fidelidade – sinal de páscoa

A minha crónica de hoje parte de um raciocínio alicerçado numa certeza, embora com muito de interpretação pessoal. Situo-me no tempo litúrgico que estamos a viver: viemos da Páscoa e caminhamos para o Pentecostes. Na história da Igreja, quer bíblica quer profana, não temos muitas certezas sobre o que então se passou. Os escritos sagrados são bastante omissos quanto ao modo como os Apóstolos e os discípulos viveram aqueles momentos pascais.

A paixão, a crucifixão e a morte dispersaram-nos, e alguns começaram a delinear projetos distintos, regressando às suas terras e às ocupações anteriores. A Ressurreição encontra-os perplexos, “perdidos”, embora ainda unidos e no mesmo lugar. O Livro dos Atos dos Apóstolos, de modo muito sintético, expõe o essencial: “A eles apareceu vivo depois da sua paixão e deu-lhes numerosas provas disso, com as suas aparições durante quarenta dias, falando-lhes do Reino de Deus”. Quanto ao seu futuro, apenas subsistia uma grande certeza: “Ides receber a força do Espírito Santo, que descerá sobre vós, e sereis minhas testemunhas em Jerusalém, em toda a Judeia, na Samaria e até aos confins do mundo” (Act 1, 3.8).

Corresponderam a esta certeza permanecendo “na sala de cima, lugar onde habitualmente se encontravam”. “Todos unidos pelo mesmo sentimento, entregavam-se assiduamente à oração, juntamente com algumas mulheres, entre as quais Maria, Mãe de Jesus, e com os irmãos de Jesus”. Assim passaram quarenta dias até ao dia da Ascensão. “Quando chegou o dia do Pentecostes, encontrando-se todos reunidos no mesmo lugar” (Act 2, 1), acolheram o Espírito Santo.

Habituamo-nos a passar rapidamente da Ressurreição para o Pentecostes, como se este fosse o dia do verdadeiro nascimento da Igreja, imaginando aqueles dias como um tempo vazio. Penso, porém, sem entrar em profundas considerações exegéticas, que foi grande a riqueza então vivida: até à Ascensão, com a presença ocasional de Cristo, e depois durante dez dias de profunda consciencialização para a missão confiada. Se o período da paixão e morte foi de hesitação e desencanto, este terá sido de renovado acolhimento de Cristo, que lhes confiou a missão que o Pai Lhe tinha entregado. Era necessário ser fiel, não trair o projeto. Urgia caminhar na fidelidade, para não defraudar a confiança recebida. Eram continuidade, e não uma aventura pessoal.

Olho para os tempos atuais, marcados por tantos ventos adversos. O Papa Leão XIV, para assinalar os sessenta anos da aprovação de dois documentos conciliares sobre a vida, o ministério e a formação dos sacerdotes, publicou, em 8 de dezembro de 2025, uma Carta Apostólica intitulada “Uma Fidelidade que Gera Futuro”.

Nela, convida os sacerdotes e, neles, toda a Igreja, a acolher uma “ótica da fidelidade”, no duplo sentido de manifestar alegria no acolhimento da graça deste momento e, simultaneamente, corresponder com alegria ao que Deus hoje pede no interior da Igreja e nas interpelações que o mundo, diferente e indiferente, vai formulando. Há um projeto de Deus ao qual importa ser fiel. Andamos, por vezes, demasiado preocupados com processos de renovação eclesial; contudo, tudo o que for discernido só terá vitalidade e incidência a partir da fidelidade, pois só esta é verdadeiramente fecunda: “uma fidelidade que gera futuro”.

Assumindo esta ótica da fidelidade, o Papa, no referido documento, alerta para duas tentações. Em primeiro lugar, a de imaginar que uma preocupação com a eficiência, desdobrada persistentemente na procura de novos métodos ou formas de intervenção, repetindo atividades sem cuidar da hierarquia espiritual, possa constituir solução. Há ainda uma outra tentação, que ele classifica como quietismo, ou seja, uma “atitude preguiçosa e derrotista”. Não é fácil reconhecer qual destas duas tentações mais nos deve preocupar. Ora corremos em demasia, ora paralisamos, sem dar prioridade a um compromisso fiel e sereno.

A fecundidade, ou criatividade na fidelidade, exige grande equilíbrio. O tempo pascal supõe movimento e vontade de fazer passagem para comportamentos novos, que nunca devem desvirtuar o projeto originário de Cristo. O silêncio exterior e a serenidade para pensar, em comunhão, os novos caminhos a percorrer apaixonaram os Apóstolos, levando-os a trilhar percursos que nunca tinham imaginado. A sua vida adquiriu sentido e produziu frutos, como o demonstra a vitalidade das primeiras comunidades cristãs.

Este viver em fidelidade não diz respeito apenas à Igreja e às suas comunidades. Só quando os cristãos, individualmente e, consequentemente, em comunidade, crescerem na fidelidade é que o agir eclesial será fecundo. Com efeito, a vida nova da Páscoa deve acontecer no íntimo de cada batizado.

Os Apóstolos souberam parar para iniciar a aventura da evangelização, revelando coerência e autenticidade. Algo de semelhante terá de acontecer hoje.

A fidelidade começa em cada batizado, e tudo se repercutirá no tecido eclesial.

D. Jorge Ortiga

D. Jorge Ortiga

9 maio 2026