Os populismos surgem com aparência sedutora: dizem falar em nome do povo, denunciam elites, prometem devolver voz aos esquecidos e afirmam defender a verdade contra os poderes instalados. Tudo parece simples e transparente. Contudo, é aí que a hermenêutica da suspeita se torna indispensável. Quando um discurso se proclama puro e redentor, a inteligência democrática deve perguntar que interesses, ressentimentos e estratégias de poder se escondem nessa encenação de autenticidade.
A expressão “hermenêutica da suspeita”, associada a Paul Ricoeur, designa uma interpretação que não se contenta com o sentido aparente das palavras. Não pergunta apenas o que está a ser dito, mas quem beneficia, que inimigos fabrica, que medos mobiliza e que domínio legitima. Aplicada aos populismos, mostra que a invocação do povo pode esconder a redução da sociedade a uma massa homogénea e obediente, conduzida por uma liderança que se apresenta como sua única intérprete legítima.
Marx ensinou-nos a suspeitar das ideias quando encobrem interesses materiais. Muitos populismos dizem combater os poderosos, mas desviam a indignação social para alvos frágeis: migrantes, minorias, jornalistas, professores ou instituições independentes. Em vez de enfrentarem as causas reais da desigualdade, oferecem culpados visíveis e eficazes. A suspeita pergunta se a cólera popular está a ser libertada ou administrada por quem dela retira dividendos eleitorais.
Nietzsche ajuda-nos a reconhecer que certos discursos morais ocultam ressentimento e vontade de poder. O populismo apresenta-se como indignação virtuosa, mas vive da divisão entre puros e impuros, patriotas e traidores, povo verdadeiro e inimigos internos. A moral converte-se em arma de exclusão. O adversário deixa de ser alguém com quem se discorda e torna-se alguém a expulsar simbolicamente.
Freud recorda-nos que os discursos coletivos têm zonas inconscientes. O populismo explora medos profundos: perda, substituição, irrelevância e complexidade. Por isso prefere slogans a argumentos, emoção a racionalidade, e suspeita permanente a deliberação paciente. O líder apresenta-se como quem diz em voz alta o que muitos sentem em silêncio. Mas escuta o sofrimento das pessoas ou transforma-o em combustível para a sua ascensão?
A astúcia populista consiste em usar a linguagem da democracia contra a própria democracia. Fala em nome do povo, mas desconfia dos procedimentos que protegem a sua pluralidade real. Invoca a soberania popular, mas despreza parlamentos, tribunais, imprensa livre, universidades e organismos independentes. Democracia sem mediações não se torna mais pura, torna-se mais exposta à arbitrariedade. Quando o povo é reduzido a uma voz única, converte-se em instrumento retórico de quem pretende governar sem contraditório.
Também no plano religioso a suspeita é necessária. Há populismos que instrumentalizam símbolos cristãos e referências à tradição para legitimar fechamento e agressividade cultural. A fé capturada por esta lógica deixa de ser caminho de conversão e torna-se emblema tribal. O Evangelho, centrado nos pobres e nos feridos, é substituído por uma religião identitária.
A suspeita, porém, não deve tornar-se desprezo pelo povo. A crítica dos populismos só é justa quando reconhece que eles crescem onde a democracia falhou, onde as instituições se tornaram distantes e muitos deixaram de se sentir escutados.
Por isso, a resposta aos populismos consiste em reconstruir confiança verdadeira, em devolver a todos os benefícios económicos e políticos da democracia. Criticar os populismos não é rejeitar a voz do povo, é defendê-lo da sua captura retórica. É impedir que a dor social se converta em ressentimento e que a democracia seja substituída pela sedução autoritária. Num tempo em que a mentira se veste de evidência moral, suspeitar é ainda uma forma de cuidar da democracia.