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Japão – O segredo para o êxito económico e social (2)

Se há país onde o êxito tem a ver com o respeito de uns pelos outros e educação esmerada é certamente o Japão. Muito se explica através do ensino nas famílias e escolas, onde os pais não reivindicam dos professores, mas agradecem a instrução e educação ministrada às crianças.

É uma viagem longa, cuja primeira etapa se faz normalmente até ao aeroporto de Istambul. É verdade. Lembro quando há vários anos estive no velho aeroporto internacional, em que todos os turistas tinham de pagar 24 euros (não sei se para a construção do atual) uma jóia de arquitectura, em forma de estrela, e com uma companhia aérea com serviço de excelência… Sem dúvida, numa Turquia bem preparada para o turismo e com aberturas possíveis no estreito do Bósforo.

Qual então o grande segredo do êxito do Japão e uma grande lição para nós, e se tornou moda?

Depois da educação nas escolas, em que as crianças são quem faz as limpezas dos seus espaços, assim como os últimos dias do ano servem para todos (do administrador ao estafeta) limparem os escritórios. Há espírito comunitário e de entreajuda que começa na cultura do arroz, exigindo a colaboração de todos, por necessidade e para o bem comum, em que cada qual é responsável pelo outro e pela natureza, espécie de divindade. Além disso, como não há contentores na rua, cada um é responsável pelo seu lixo, ou em frente da sua casa. As crianças limpam as escolas, cujo trabalho não é considerado infantil, mas formação de cidadãos para a limpeza do conjunto na sociedade. Limpeza, beleza, harmonia, cuidado dos jardins são tarefa de todos. O bem, antes de ser uma abstração moral é um conceito baseado na limpeza. Fez-me lembrar a Alemanha , onde um desempregado, para receber o subsídio de desemprego tinha de dar 8 horas a 1 euro/hora, nem que fosse a limpar as folhas do cemitério ou limpar os jardins e sanitários públicos: Só é belo o que é limpo (Kirei). Não é por acaso que o xintoísmo se funda na natureza, a qual não é a manifestação do divino, de qualquer paraíso sobrenatural, ou de altas esferas espirituais. A Natureza é essa divindade, esse paraíso, essa essência espiritual, pelo que não pode ser conspurcada, nem física, nem humanamente. Como escreveu Filipe Santos Costa, mesmo no budismo, que chegou mais tarde, e mais voltado para a memória dos mortos, acrescentou à dimensão religiosa a impermanência, que é a condição do efémero. As cerejeiras (Sakura) em flor – não é um fetiche –exprimem na sua beleza uma espécie de teto, sob o qual é sentir o céu ao alcance da mão, mas são também frágeis e efêmeras.

O Japão, sendo marcado por sismos, tsunamis, tempestades, vulcões e tufões, a efemeridade é um facto da vida. Prova que tudo é passageiro. Os nossos monumentos são feitos para resistir e testemunham os tempos idos. O equivalente japonês a esta vanglória de persistir será a ambição de abraçar a efemeridade,desfrutar dos intervalos entre tremores de terra e maremotos, chuvas diluvianas, ventos ou fogos que destroem ou obliteram as cidades. 

Os monumentos não são eternos, mas reconstruções; a edificar a paisagem, podem até ser demolidos, mas devem ser reconstruídos com dignidade, respeito, harmonia e beleza: Tóquio teve de demolir muitos para dar a harmonia da cidade moderna actual. Mas as florestas devem ser olimpicamente respeitadas e limpas, como as flores de cerejeira, em que a floração no seu esplendor (Primavera ou Outono cromático) é esperada com ansiedade e todo o país se prepara para as grandes romarias, ou fazer um piquenique e desfrutar (sakuras) sob esse céu florido, enquanto as flores não são levadas pelo vento (Cf. Visão 23 de Abril 2026 n. 1729).

O segredo da beleza nas construções está no planeamento, onde se incluem muitas sinergias e técnicas para que resulte a beleza e harmonia do conjunto. Por isso custa tomar uma decisão final, que, por vezes, é demorada… Parece mesmo estarmos em Portugal onde a decisão de um aeroporto se arrasta há mais de cinquenta anos…

Mas tudo o que se faz tem de se prever e prevenir as catástrofes com cálculos e técnicas, sem improvisação, mas consistentes. Cita-se Roland Barthes, que chamou ao Japão o Império dos Símbolos, porque as grandes cidades estão cobertas de anúncios, neons, cartas e letreiros, a avisar de perigos, etc, como no metro a advertência de não cruzar as pernas, sobretudo para evitar fotografias de tarados debaixo das saias das raparigas…

Os rios e canais nas cidades têm amplas zonas verdes, mas bem sinalizados para os perigos de cheias.Tóquio tem o mais colossal sistema de de prevenção de cheias e calamidades com gigantescos túneis capazes de absorver e canalizar quantidades diluvianas de águas, uma espécie de catedral subterrânea de refúgio.

Conforme o citado autor, Tóquio é a megacidade mais segura do mundo com uma beleza e harmonia impressionante. A partir dos 6 anos todas as crianças, de passe ao pescoço, carregando a mochila de couro com o seu chapeuzinho colorido e levantando o braço para atravessar a passadeira, lá vão para a escola sozinhas, seja um percurso pedestre no bairro, ou uma viagem que inclua metro ou autocarro, sempre de uma pontualidade exacta. Acresce ainda que nas escolas ensinam matemática no secundário, que apenas no ocidente se ensina na universidade.

No Japão o agradecer é uma regra de vida: arigatou, obrigado muito obrigado! sem beijos nem abraços, mas de vénias… como entrar em certos restaurantes ter de descalçar os pés e deixar os sapatos num lugar determinado. Mesmo ao entrar em certos automóveis, o mecânico tem de se descalçar para fazer a reparação. 

Em tudo há um sinal de reconhecimento mesmo que seja um serviço remunerado, porque o sentimento de dívida vai para além de retribuições imediatas; gentileza, dedicação que não se paga –, bem expressa nas atitudes femininas –, mas se agradecem por consideração e gratidão. As mulheres ocupam-se mais do lar e da família, educadoras e professoras, mas não na política, sem feminismo doentio ou revanchista. Enfim…

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Rosas de Assis

9 maio 2026