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Falhanço … a base da mentalidade vencedora

Em Portugal, são poucos os que falham, porque “a culpa morre quase sempre solteira”, e é tão típica esta constante corrosiva desculpabilização: a culpa é sempre dos treinadores; na escola, perante o insucesso, a culpa é dos professores ou dos pais (numa cantoria ao desafio); na política o falhanço é sempre do governo anterior; no falhanço, é sempre o “Outro”, o grande culpado. Por outro lado, basta uma equipa perder uma final, um treinador não terminar em primeiro lugar ou um atleta não conquistar uma medalha olímpica, para surgirem críticas duras, análises exageradas e comentários que transformam um percurso desportivo, tanta vez revestido de méritos, numa aparente derrota absoluta, num incrível “falhanço”!... Esta visão simplista do sucesso e do insucesso revela muito sobre a nossa (triste) cultura. 

Em muitos campeonatos, apenas o vencedor parece merecer reconhecimento. Quem fica em segundo, em terceiro ou quarto lugar é frequentemente tratado como alguém que “falhou”, mesmo depois de uma época longa, exigente e cheia de vicissitudes. No entanto, será justo considerar um falhanço uma equipa que competiu ao mais alto nível, venceu dezenas de jogos e lutou até ao fim?

O Desporto tem, por natureza, uma imprevisível dimensão competitiva. Nem sempre ganha quem melhor joga, quem mais se empenha ou quem demonstra maior regularidade. Existem fatores como lesões, pressão psicológica ou simplesmente… o mérito do(s) adversário(s). Acho piada que, quando um “grande” joga e perde, nunca é o adversário que tem mérito, é sempre um “falhanço”. Um treinador que termina um campeonato numa posição secundária pode ter realizado um excelente trabalho de organização, na sistematização e crescimento da equipa, mesmo que não tenha levantado o troféu, mas, não ficou em primeiro, é um falhado! Com “memória de peixe”, muitos comentadores desportivos, após uma derrota, tendem a aplicar expressões como “fracasso”, “desilusão” ou “época perdida”. Estas análises, em vez de promoverem reflexão e equilíbrio, incentivam o julgamento imediato e a depreciação total sobre o trabalho de atletas, treinadores e de clubes. Michel Jordan, um dos mais espetaculares atletas do desporto de sempre, referiu que o falhanço era a base da sua mentalidade vencedora. Ninguém é perfeito, pelo que o erro faz parte, assim, devemos construir a evolução, utilizando o “falhanço” como a lição para melhorar. Avaliar o processo, a causa, é a razão da aprendizagem e da evolução, enquanto que a “desculpabilização” para a estagnação.

Talvez o maior problema esteja na incapacidade de reconhecer o mérito, mesmo sem a presença de um troféu. O desporto ensina superação, disciplina e resiliência. Se apenas o primeiro lugar tiver valor, perde-se uma das suas lições mais importantes: vencer não é a única forma de sucesso.



 

Carlos Dias

Carlos Dias

8 maio 2026