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Todos, todos, todos… mas mesmo TODOS!

O anterior Papa deixou uma marca muito para além da dimensão religiosa. Foi, acima de tudo, um líder verdadeiramente inclusivo, capaz de transmitir uma ideia simples, mas profundamente transformadora: a de uma sociedade equilibrada que exige que todos sejam tratados com dignidade e tenham acesso às mesmas oportunidades. Ficou célebre a expressão “todos, todos, todos!”, símbolo de uma visão humana, ética e integradora. Nada melhor do que esta mensagem para refletir sobre o desporto e, em particular, sobre o futebol português. Todos os dirigentes desportivos, entidades reguladoras e responsáveis com funções públicas deveriam recordar que a sua missão não é proteger interesses instalados, mas garantir equilíbrio, justiça e desenvolvimento para todos os agentes do sistema. A própria Constituição da República Portuguesa aponta nesse sentido, para uma sociedade de igualdade de oportunidades.

Ora, quando olhamos para o futebol profissional português, percebemos rapidamente que estamos ainda longe dessa realidade. Continua a ser difícil compreender como, “neste tempo”, os responsáveis por esta modalidade não conseguiram ainda implementar um modelo de distribuição dos direitos televisivos que contribua verdadeiramente para melhorar a(s) competição(ões). O tema arrasta-se há anos, sempre com justificações, adiamentos e receios de mudança. A verdade é que os modelos mais evoluídos demonstram exatamente o contrário, pois quanto mais equilibrada e competitiva é uma liga, maior é o interesse social, maiores são as audiências, maior é o seu valor comercial e melhores são os resultados internacionais. A competitividade não enfraquece nenhum clube por favorito que seja, fortalece todo o sistema.

Importa reconhecer que o futebol português teve, em pouco mais de uma década, uma evolução notável em muitos aspetos, nomeadamente nos resultados internacionais alcançados pelas seleções nacionais, em várias variantes, escalões e géneros, e na modernização de várias áreas do setor. Mas esse sucesso não teria sido possível sem o trabalho diário dos clubes, dos treinadores, dos dirigentes, dos atletas e das comunidades espalhadas por todo o território nacional, com as famílias muitas vezes na linha da frente. Todos contam. E todos devem beneficiar do crescimento do sistema que fomentam.

Persistir num modelo excessivamente concentrado nos mesmos protagonistas representa um risco real para a sustentabilidade futura do futebol português. Um sistema que distribui de forma profundamente desigual os seus recursos acaba por fragilizar a base competitiva, reduzir o interesse das competições e aumentar dependências perigosas. O futebol precisa de mais equilíbrio, mais inteligência e maior coragem política. Uma distribuição mais justa dos direitos televisivos permitiria reforçar a estabilidade financeira de muitos clubes, melhorar infraestruturas, investir mais na formação, aumentar a competitividade interna e valorizar ainda mais o “produto” do futebol português no plano internacional. Ganham os clubes, ganham os adeptos, ganha a competição e ganha o país.

Por isso, talvez esteja na altura de acabar também com os “trios de ataque” permanentes nas decisões sobre recursos e o próprio interesse público, pois isso implica responsabilidade nacional, pluralismo e equilíbrio. As decisões difíceis devem ser tomadas quando são justas e estruturais, podem “doer” uma vez a alguns… mas beneficiam o sistema durante décadas. Se o desporto quer realmente afirmar-se como espaço de ética, inclusão e desenvolvimento, então a mensagem deve ser clara e coerente: “todos contam, mas mesmo todos!”.

Fernando Parente

Fernando Parente

8 maio 2026