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Gonzaga Codeço

Ele, Gonzaga Codeço, com 95 anos de idade, bem pesados, bem medidos e melhor vividos, ficou para o fim; e porque pertencia a uma grande e animada tertúlia de amigos, entretinha os ócios da reforma, ora nos bancos dos jardins públicos entre dois dedos de amena cavaqueira de política e de futebóis, ora nas casas de pasto entre umas rijas suecadas e umas apetitosas pataniscas de bacalhau ou de fígado bem regadinhas com abundantes copos de tintol.

Levou-os todos à eterna morada com aquela ternura e verdade que fazem das

coisas mais simples e banais autênticos atos de fé; e sempre que lá deixava um amigo, fosse num mausoléu, fosse numa campa rasa, era como um bom pedaço de si mesmo que também por ali ficava, debaixo das paradas de terra e ou do silêncio eterno.

“– Porra, pelos amigos a gente dá-se e vira-se nem que seja do avesso, se for caso disso.”

Um filósofo, este Gonzaga Codeço que era o mais velho do grupo; mas as coisas

são como são e não há que tentar inverter-lhes o sentido e também não tem culpa nenhuma de ser ele a apagar as luzes e a fechar as portas da… vida; todavia, uma coisa garante ele já e com veemência: há de fazê-lo com a dignidade e o brilho que a memória do grupo lhe merece.

Já vem do outro século e, como todos os velhos, é um livro aberto de muitas histórias e outras tantas aventuras, pois atravessou vários desertos, venceu procelosas marés e tentou mesmo abanar a árvore das patacas lá pelos brasis; mas não deu certo como tantas coisas mais na sua vida, sendo, por isso, um homem com um raro sentido da existência o que lhe permite, assim, saber mais da vida do que qualquer iluminado das políticas ou das ideologias.

E diz, clara e contundentemente, dos políticos:

“– Uma gaiatada! Nos tempos do Paiva Couceiro é que sim: os homens não se vendiam por bagatelas, nem se mediam por pratos de alfarrobas ou lentilhas como agora”.

Olha ainda para as garotas com malícia e tartamudeia:

“– No meu tempo não havia disto; umas franganitas estas moças de hoje que nem podem com um gato pelo rabo e quase nem saia usam; as mocetonas do meu tempo, caramba, eram capazes de dar um salto a uma pipa de vinho e carregar um saco de batatas de cinquenta quilos”.

É, agora, um homem só, porque os amigos todos se foram e as tertúlias também; por isso, sente que já não há de ter muito mais tempo de vida, porque lhe fraquejam bastante as pernas, a cabeça, por vezes, já confunde tudo, os intestinos começam a não responder e a falhar frequentemente no ato de alívio das suas necessidades básicas e necessárias e o coração, ai o coração, de tanto amar e sofrer, é, agora, uma máquina estafada que ronrona e resfolga ao primeiro esforço.

Mas não faz mal, porque há uma coisa que ele sempre na sua vida soube fazer com elegância e aprumo: sair das situações mais embaraçosas, quando sabia e sentia que estava a mais, pela porta larga que é como quem diz, de cabeça bem levantada e corpo, obviamente, aprumado.

E é o que há de fazer quando chegar a hora da partida; porque, além do mais, começa já a sentir, frequentemente, que o mundo à sua volta já lhe é adverso e a vida se lhe vai escoando lentamente.

Ora, assim também não, pois a vida tem de ter um mínimo de qualidade e doçura, doutro modo não presta e não deixa saudades, seguramente; e, por isso, é que Gonzaga Codeço é um filósofo, um verdadeiro filósofo.

Então, até de hoje a oito.

Dinis Salgado

Dinis Salgado

29 abril 2026