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Ser daqui III Lágrimas e bágoas

A proximidade sociológica e cultural entre o Norte e a Galiza é uma marca singular e vincada do Noroeste Peninsular, enraizada na Antiguidade. 

A presúria de Portucale por Vímara Peres (868) deu origem ao Condado Portucalense, inicialmente estendido até ao Douro, e foi decisiva na dinâmica da Reconquista da antiga Galécia. A morte de Fernando Magno de Leão (1065) abriu um período conturbado: ao dividir o Noroeste entre os seus três filhos, atribuiu a Garcia o reino da Galiza, extinguindo o condado e provocando a resistência da nobreza portucalense. Essa contestação culminou na Batalha de Pedroso (1071), junto a Tibães, onde Nuno Mendes tombou num último gesto de autonomia antes da dissolução desse primeiro condado.

Desde os finais da Alta Idade Média, Santiago foi presença espiritual e força estruturante do poder político. Lenda ou fé, milagre ou inventio, quase tudo por aqui se fez sob o signo do Apóstolo. Em seu nome, Diego Xelmírez (bispo desde 1100, arcebispo até 1140) transformou Campus Stellae — a Jakobsland cobiçada pelos normandos — num dos vértices da Cristandade medieval, ao lado de Roma e Jerusalém. Os Caminhos de Santiago, que moldaram a Europa muito antes do surgimento das nações modernas, coseram a Galiza ao Entre‑Douro‑e‑Minho e a todo o atual Norte português, com rotas que ainda hoje estão gravadas na paisagem. Mas o esplendor compostelano também lançou sombras: a disputa com Braga pelo primado religioso, cujas tensões ecoaram até Roma. O inusitado pío latrocínio — quando veneradas relíquias, entre elas as de São Frutuoso, foram levadas de Braga para Compostela — provocou a ira do arcebispo São Geraldo, dos nobres e do povo (apenas em 1966, por ação diplomática entre os regimes de Salazar e Franco, regressaram as ossadas do bispo visigodo a Montélios, onde se encontram hoje expostas com a dignidade que a sua história merece).

Após o curto reinado de Garcia, seu irmão Afonso VI reintegrou o território galego‑leonês e reforçou as defesas e arsenais perante o recrudescimento almorávida. Para esse esforço, chegaram da Borgonha, nos finais do séc. XI, dois cruzados, Raimundo e Henrique.

Os seus casamentos com Urraca e Teresa abriram novas configurações de poder. Teresa – filha do rei, embora não tão filha como a outra – foi confiada a Henrique, juntamente com o governo do espaço portucalense, a fronteira meridional e ativa da Reconquista. Assim, foi restaurado o Condado Portucalense (1095) sob a autoridade de D. Henrique e, após a sua morte, de Teresa, que adotou o título régio de Rainha de Portucale. O seu filho, Afonso Henriques, formado para ser mais do que conde no seio das elites nobiliárquicas portucalenses, nomeadamente no Ribadouro, alimentou e consumou uma vontade indómita de autonomia. Essa trajetória foi acentuada por rivalidades entre casas nobres do Condado Portucalense e do espaço galego‑compostelano, bem como por tensões entre dignitários eclesiásticos, num contexto geopolítico mais amplo marcado pela influência cluniacense – particularmente relevante em Compostela – e, mais tarde, pelo apoio decisivo da Ordem de Cister ao novo reino.

Após várias contendas, a sorte das armas decidiu‑se em Guimarães, na tarde de 24 de junho de 1128, dando nascimento político a Portugal – “a primeira tarde portuguesa”, na expressão de José Mattoso. Nunca é demais reiterá‑lo: o projeto político que viria a chamar‑se Portugal nasce nas comunidades do atual Norte, em particular nas elites laicas do Entre‑Douro‑e‑Minho, no clero bracarense, no dinamismo urbano e mercantil de Portucale e nas populações da chamada “Galiza do Sul”, que partilhavam uma matriz linguística, práticas jurídicas e estruturas comunitárias consolidadas num território densamente organizado.

Mas a irmandade do povo continuou a revelar‑se ao longo dos séculos, apesar das novas fronteiras. Manifestou‑se na cultura e na dor, mas também na capacidade de adaptação, de trabalho, de criação e de transformação deste território. As migrações deixaram cicatrizes, mas foram igualmente caminhos de construção de futuros, de acumulação de saber e de afirmação social. Galegos e nortenhos viveram ciclos migratórios paralelos – os primeiros, sobretudo, rumo à Argentina e ao Douro, onde socalcos, muros e vinhas guardam ainda o seu labor; os segundos rumo ao Brasil e, mais tarde, ambos para a Europa – levando consigo língua, práticas comunitárias, iniciativa económica e uma alegria resiliente que ajudou a moldar as terras de chegada e a reconfigurar identidades de origem.

O povo soube contornar fronteiras e fortalezas erguidas no rio Minho (de Caminha a Melgaço), no Lima (com destaque para o Lindoso) e na raia seca de Castro Laboreiro ou de Chaves. Criou aldeias transfronteiriças e realidades singulares como o Couto Misto, preservando laços familiares, trocas e redes mercantis. Hoje, este é o troço mais vivo e dinâmico de toda a fronteira entre Portugal e Espanha.

Uniu‑nos Santiago e as estórias da terra e do mar. Uniu‑nos o português – hoje falado por mais de 270 milhões de pessoas e nascido do galego‑português medieval. Uniu‑nos a fome e a esperança, as doenças e as romarias, bem como o contrabando que sustentou famílias em tempos difíceis. Uniu‑nos o destino partilhado no oceano comum, salgado pelas lágrimas do Mar Português, de Pessoa, e pelas bágoas do Pranto matricial, de Valentim Paz‑Andrade.

Uniu‑nos também a admiração recíproca das elites da contemporaneidade, como os intelectuais da Geração Nós, com Vicente Risco a escrever a Teixeira de Pascoaes, que o recebeu em Amarante. Uniu‑nos, já na segunda metade do século XX, a solidariedade entre aqueles que procuraram refúgio do outro lado durante as ditaduras peninsulares.

Toda esta história – e algum imaginário celta – constitui um património comum que alimenta o conceito coetâneo de Galécia Magna, expressão cultural que ultrapassou fronteiras e encontra hoje novo sentido numa economia cada vez mais interpenetrada.

Partilhamos a mesma alma atlântica – verde, húmida e indomável. Somos herdeiros da mesma Galécia profunda, cultural e histórica, que nunca deixou de pulsar: herança viva, projetada para o futuro que queremos mais partilhado.

António M. Cunha

António M. Cunha

29 abril 2026