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Prevenção de acidentes domésticos: um desafio diário que começa em casa

Os acidentes domésticos e de lazer continuam a ser uma realidade silenciosa, mas com impacto significativo na saúde pública em Portugal. Todos os anos, milhares de pessoas recorrem aos serviços de urgência devido a quedas, queimaduras, intoxicações ou cortes ocorridos no domicílio.

Dados do sistema EVITA/INSA revelam que, em 2022, foram registados mais de 100 mil episódios de acidentes domésticos com recurso aos serviços de urgência, sendo as quedas responsáveis por cerca de 53% das ocorrências. As crianças até aos 14 anos e as pessoas com 65 ou mais anos são os grupos mais afetados, estimando-se que, entre os idosos, cerca de dois terços das quedas ocorram no domicílio, o que evidencia a casa como um espaço com potencial de risco.

Apesar destes números, os acidentes domésticos continuam frequentemente desvalorizados no discurso em saúde. Quando se fala em saúde, o olhar tende a focar-se na doença, no diagnóstico e no tratamento, esquecendo que uma parte substancial dos ganhos em saúde acontece antes, através da prevenção. As consequências destes acidentes vão além das lesões físicas, associando-se à perda de autonomia, medo, absentismo laboral, institucionalização precoce e maior dependência de cuidados formais e informais.

A casa é habitualmente percecionada como um espaço de segurança e conforto. No entanto, a presença de barreiras arquitetónicas, iluminação inadequada, ausência de medidas de proteção ou comportamentos de risco pode transformá-la num local perigoso. A prevenção começa pelo reconhecimento destes fatores. Nas crianças, a curiosidade natural e a imaturidade na perceção do perigo exigem supervisão ativa e adaptação do ambiente ao estádio de desenvolvimento. Nas pessoas idosas, alterações da mobilidade, da visão, do equilíbrio e a polimedicação aumentam de forma significativa o risco de acidentes.

Promover ambientes domiciliários mais seguros não implica soluções complexas. Pequenas mudanças no quotidiano podem ter impacto real: manter os espaços de circulação desimpedidos e bem iluminados, utilizar tapetes antiderrapantes, guardar produtos de limpeza e medicamentos fora do alcance das crianças, vigiar fontes de calor e assegurar a correta utilização de equipamentos elétricos. A segurança em casa constrói-se com atenção, organização e decisões informadas.

Neste contexto, as Unidades de Cuidados na Comunidade, integradas nas Unidades Locais de Saúde, assumem um papel estratégico na promoção da prevenção e da segurança. Pela proximidade às populações e pelo conhecimento aprofundado dos seus contextos de vida, estas equipas desenvolvem intervenções de educação para a saúde, avaliação do risco no domicílio e acompanhamento de pessoas e famílias mais vulneráveis, contribuindo para ganhos em saúde, qualidade e sustentabilidade do sistema.

Desta forma, promover a segurança no domicílio exige uma abordagem integrada, próxima das pessoas e atenta às especificidades de cada contexto familiar. A prevenção de acidentes domésticos constrói-se no quotidiano, através de escolhas informadas, da adaptação dos espaços e da valorização de comportamentos seguros ao longo de todo o ciclo de vida.

Investir na prevenção é investir em autonomia, bem-estar e qualidade de vida. É reconhecer que muitos acidentes são evitáveis e que a saúde se protege antes da emergência acontecer. Porque a segurança não é um acaso, nem exclusiva dos serviços de saúde: constrói-se todos os dias, dentro de casa.

Cuidar da saúde começa onde o risco muitas vezes é esquecido: em casa!

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Ana Alvarenga e Raquel Lopes

28 abril 2026