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Por Entre Linhas e Ideias

Que lugar ocupa hoje a liberdade na nossa vida? Há perguntas que não podem ficar por fazer, sobretudo quando nos obrigam a olhar para aquilo que damos como garantido. No passado dia 25 de abril comemoraram-se os 52 anos da nossa democracia, assinalando a Revolução de 25 de Abril de 1974. E volta a pergunta que sempre fazemos neste dia: onde estavas tu?

Eu sei onde estava. Estava na cidade de Lamego, na escola primária, no 2.º ano. Vivi ainda os últimos ecos de um tempo que estava a terminar e entrei, quase sem dar por isso, num outro que começava. Lembro-me de assistir, nesse dia, em direto ao Festival da Canção, na RTP1, e de ouvir Paulo de Carvalho interpretar a canção E Depois do Adeus, com letra de José Niza, numa voz inconfundível e poderosa. Uma canção que, mais tarde, percebi ter sido a senha que deu início à operação militar que mudaria o rumo do país. Lembro-me também dos nomes incontornáveis dos militares que tiveram a coragem de virar a página e derrubar o governo de Marcello Caetano e o regime ditatorial do Estado Novo, vigente desde 1933: Salgueiro Maia, Otelo Saraiva de Carvalho, Vasco Lourenço, Vítor Alves, Melo Antunes e Vasco Gonçalves. Recordo ainda os debates intensos dos primeiros tempos da democracia entre Mário Soares, Francisco Sá Carneiro e Álvaro Cunhal, três protagonistas decisivos na construção e afirmação da democracia em Portugal.

Mas a transição para a democracia não foi imediata. Foi lenta, feita de pequenos passos, e só nos anos 80 começou verdadeiramente a tornar-se plena para muitos de nós. Talvez por isso saiba que a liberdade não é um dado adquirido nem uma conquista irreversível pois depende da nossa atenção e do compromisso de cada geração. Quando deixamos de participar nas eleições, de questionar ou de pensar criticamente, vai enfraquecendo sem darmos por isso, e é precisamente isso que John Stuart Mill nos lembra no seu livro Sobre a Liberdade, ao defender que sem confronto de ideias não há progresso nem aproximação à verdade.

Se quisermos dar um passo mais fundo nesta reflexão, podemos olhar para Immanuel Kant. Para ele, ser livre não é apenas escolher, é agir segundo princípios que a razão reconhece como válidos para todos. A liberdade implica responsabilidade. Como escreveu Kant, “a liberdade é a condição da dignidade humana”. Esta ideia ajuda-nos a perceber que a liberdade só ganha sentido num quadro que a proteja. Desde 1948, com a Declaração Universal dos Direitos Humanos, essa preocupação tornou-se um marco icónico e uma necessidade reconhecida, afirmando que todos nascem livres e iguais em dignidade e direitos.

Por isso, esta reflexão não deve ficar apenas no plano das ideias, mas permitir o exercício de um pensamento crítico. Como nos lembra Zygmunt Bauman, a liberdade vive em tensão com a segurança e, quanto mais procuramos segurança, mais aceitamos limites à liberdade, e quanto mais queremos liberdade, maior é a incerteza que temos de enfrentar. Temos de saber ser livres nesta ambivalência.

A liberdade não é apenas uma herança, é uma responsabilidade viva que se cumpre ou se perde nas escolhas de cada dia. A história mostra-nos que nunca foi fácil conquistá-la. Nelson Mandela passou anos na prisão, Martin Luther King Jr. foi assassinado e Sophie Scholl foi executada pelo regime nazi por ousar defender a liberdade de pensamento e resistir à propaganda totalitária. Nenhum deles tratou a liberdade como garantida, todos a viveram como um compromisso até ao limite e é por isto que deixo aos nossos leitores esta inquietação final:


 

- O que estamos nós a fazer, hoje, com a liberdade que herdámos?

Eugénio Oliveira

Eugénio Oliveira

29 abril 2026