Está visto que não é a invernia da adversidade que impossibilitará o surgimento de uma tão desejada primavera vocacional.
Entre os povos onde as vocações mais aumentam encontramos territórios atravessados por perseguições incessantes.
A título de exemplo, veja-se o que se passa na Nigéria ou na República Democrática do Congo.
Nestes países, há dioceses onde as vocações sacerdotais duplicam e triplicam, não obstante as chacinas quase diárias, cometidas contra fiéis leigos, padres e seminaristas.
O segredo está no encontro íntimo e no compromisso incondicional com Cristo. Quem Cristo segue a nenhum obstáculo cede.
Já onde há vacilação é frágil o seguimento. A crise vocacional não é uma crise de chamamento; será sempre uma crise de escuta e, consequentemente, de resposta.
Neste ocidente ruidoso, a agitação do exterior tende a desconfigurar o interior.
Os cristãos até são muito empreendedores, mas será que conseguem ser devidamente escutadores?
Acontece que a relação com Deus – reconhece o Santo Padre na Mensagem para o Dia Mundial das Vocações – «constrói-se principalmente no silêncio e na oração».
É uma relação assim cultivada que «nos abre à possibilidade de acolher e viver o dom da vocação».
É preciso, pois, reativar o antigo silenciário com vista «à descoberta interior do dom de Deus».
Neste sentido, o ponto de partida da pastoral vocacional e – mais vastamente – de toda a evangelização é «o cuidado da interioridade».
Para que a voz de Deus seja escutada e o convite de Cristo possa ser amadurecido, é fundamental que «os nossos ambientes eclesiais brilhem pela fé viva, pela oração constante e pelo acompanhamento fraterno».
Há que «criar espaços de silêncio interior para intuir o que o Senhor deseja para a nossa felicidade».
A vocação é um «diálogo íntimo com Deus, que nos chama, encorajando-nos a responder com verdadeira alegria e generosidade».
Daí o apelo especialmente dirigido aos jovens: «Parai em adoração eucarística, meditai assiduamente a Palavra de Deus, participai ativa e plenamente na vida sacramental e eclesial».
Efetivamente, crescer na vocação implica «estar com Jesus, deixar o Espírito Santo agir nos corações e nas situações da vida».
A sociedade não favorece, mas carece. Embora não o assuma, ela necessita de quem lhe faça chegar a presença e o amor do Senhor da nossa vida.
Por conseguinte, a prioridade não há de ser tanto a oratória. O decisivo é fomentar o desabrochamento de escutatórios vocacionais, de lugares perfumados pela interioridade que faz ouvir a voz de Deus.
Em oração e em missão, a Igreja nunca perderá a urgência – e a beleza – da vocação!