Quando Jesus, na Cruz, sob um sofrimento dolorosíssimo, pronuncia alguma palavra, sempre nos chama a atenção para os sentimentos que, no seu interior, manifesta. Não vemos rancor, ódio ou maldição, mas apenas o desejo de que o perdão divino recaia sobre os que se regozijavam com a sua condenação à morte. Diz, falando com seu Pai: “Pai, perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem” (Luc, 23,34).
Esta frase demonstra também o ensinamento de Cristo ao seu discípulo Pedro, quando este, talvez com um certo temor de exagerar, Lhe pergunta se devemos perdoar a quem nos ofende até sete vezes. A resposta do Senhor ultrapassa tudo o que era previsível. Não até sete vezes, mas até setenta vezes sete. Ou seja, perdoar é um sentimento, uma atitude e uma realidade que sempre deve mover a nossa relação com os outros, nomeadamente quando o seu comportamento para connosco pode ser ofensivo.
Se esta disposição de Jesus se apresenta no meio duma dor, física e psíquica, incalculável, motivada por uma crucifixão injusta e todos os maus tratos que a precederam, onde os seus algozes d’Ele troçaram e humilharam ao extremo, ridicularizando-O e até cuspindo-Lhe, mais nos admira o seu desejo de sanear todo o ser humano, não só através do seu perdão, mas também proporcionando-lhe uma aproximação familiar consigo mesmo, quando, por intermédio do seu discípulo João, que representa toda a humanidade, lhe oferece a maternidade de Maria, que como mãe zelosa e verdadeira, acompanha os últimos momentos do seu Filho Jesus no Calvário, antes da sua morte.
A cena é-nos narrada, dum modo simples pelo próprio evangelista S. João, recordando a sua presença no Calvário diante de Jesus crucificado: “Quando Jesus viu sua mãe e perto dela o discípulo que amava, disse a sua mãe: “Mulher, eis aí o teu filho. Depois disse ao discípulo.: “Eis aí a tua mãe”. E dessa hora em diante o discípulo a recebeu como sua mãe” (Jo 19, 26-27).
Nossa Senhora passa a ser a mãe de João, que representa todo o ser humano. A generosidade e a obediência total à vontade do seu Filho, que morreria pouco depois, torna Maria, sobrenaturalmente, nossa mãe. Jesus deixa de ser seu filho único e assume, pelo amor que nos devota, a nossa fraternidade.
Aproxima-se de nós o mês de Maio, todo ele relembrando a maternidade da Mãe de Jesus e a nossa filiação. São trinta e um dia que lhe dedicamos de um modo muito gostoso. Como ensinava um pai a um seu filho de cinco anos: “Nossa Senhora é tão importante e tão nossa amiga que faz anos em todos os dias do mês de Maio. Precisamos de lhe dar os parabéns todos os dias!”. O rapazito ficou um pouco indignado. E comentou: “Nossa Senhora recebe os parabéns durante um mês e eu só faço anos num dia? Isso é justo?...” O pai respondeu-lhe: “Filho, Nossa Senhora é Mãe de Jesus e de todos os homens...” O pequeno ficou um pouco mais convencido. E passado algum tempo, observou: “Pai, tens razão. Se Nossa Senhora só fizesse anos num dia, era tanta gente a telefonar-lhe, que, de certeza, se entupiam os telefones do Céu…”