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Os pastores da nossa vida

Certamente que alguma vez nos chamaram de carneiro ou chamamos carneiro a alguém. E não me refiro ao uso de nenhum apelido, mas de um nome, seja ele substantivo ou adjectivo. "Aquele é um carneiro", "é tudo uma carneirada", são frases que às vezes se ouvem para significar que alguém segue uma pessoa, um pensamento, uma ideologia e até uma religião. Nenhum problema com isso, desde que sem fundamentalismo e haja respeito. Começo assim para introduzir o assunto que trago hoje a esta coluna de opinião. 

Os carneiros, como as ovelhas, seguem sempre o pastor – ainda que este siga atrás daquelas para as olhar todas de frente –, a não ser que percam a orientação e se tresmalhem. Agora, como antes, estes animais continuam a proceder da mesma forma. Está-lhes no sangue e na experiência. Eles "sentem" que o dono ou o pastor os guiará por caminhos seguros através dos quais chegarão a pastagens verdejantes ou, pelo menos, a reservas de algum alimento necessário para a própria sobrevivência. E fazem-no em grupo. 

Um pastor tem sempre mais do que uma ovelha, doutra forma não teria essa designação. Também não há um só rebanho, por isso, a profissão contempla vários pastores, cada um conhecedor do caminho para a pastagem para onde dirigem as ovelhas. Claro que se houver dois rebanhos perto é bem provável que os animais se cruzem algum dia e uns quantos troquem de grupo, o mesmo é dizer, de pastor. É o pastor que faz o rebanho. Não quer mal a nenhum dos seus elementos, acolhe todos e faz tudo para que se sintam bem.

Não pretendo falar de religião, mas os textos litúrgicos do último Domingo foram inspiradores para o que já escrevi e vou continuar a escrever nos próximos parágrafos.

Desde o dia do nosso nascimento que contamos com os nossos Pais, os demais Familiares, os nossos Educadores e Professores, os nossos Catequistas e Orientadores Espirituais para nos ajudar na vida. E contamos ainda, ao longo de toda a nossa existência, com outros líderes cívicos e políticos que se nos propõem a representar-nos na sociedade em que estamos inseridos, a caminhar connosco e a promover iniciativas sociais, tanto no percurso que escolhemos como nos percalços da vida. É, sobretudo, destes últimos líderes que gostaria de me ocupar nas linhas de crónica que me ocorrerem, embora a reflexão se possa adequar, aqui e ali, a todos os restantes guias e orientadores. Como em todas as coisas, há sempre quem nos defenda intransigentemente e quem nos traia e engane.

Um bom pastor é o que protege e guia, o que é amigo, nos recomenda, o que nos defende de injustiças. É o que liberta os cidadãos das agruras da vida e os leva ao encontro das pastagens de felicidade, que não se aproveita dos seus votos e cumpre abnegada e desinteressadamente a sua missão de serviço. O falso pastor é aquele que se apresenta como se fosse assim, mas o que quer mesmo é orientar-se a si próprio.

De pé, com voz bem colocada, o bom pastor é quem defende os seus com todas as suas forças e ajuda todos a desviarem-se das adversidades. Politicamente, é o que renuncia ao egoísmo e à auto-suficiência, o que acolhe as diferentes sensibilidades, que chama todos a colaborar e respeita os resultados eleitorais em todas as diferentes componentes por forma a que nenhum partido ou organização deixe de ter representação nas decisões do Executivo. 

O gesto de "receber o mandato" significa(ria) exactamente esse compromisso, que não será nunca fácil, mas que o dirigente precisa de seguir sem se desculpar de que tem de cumprir o seu programa, como se fosse o único que foi sufragado. Na prática, o vencedor de uma eleição deveria produzir um programa que integrasse os demais na justa distribuição de mandatos. Receber o mandato seria optar pelo povo em vez do partido ou da organização vencedora. Se assim procedesse, não seria mais democrático? Não seria o melhor "acordo geral de regime"? 

O bom dirigente/governante não deixa nenhum dos seus cidadãos para trás e conduz todos para uma vida digna. Infelizmente, alguns não são verdadeiros pastores, concentrados que estão mais na sua autossuficiência do que em dar o braço a torcer e em reconhecer com humildade a necessidade de eliminar os preconceitos e admitir falhas e incoerências. O bom pastor é alguém singular, que faz a diferença e que não nos torna indiferentes.

Luís Martins

Luís Martins

28 abril 2026