Ao revisitar um velho caderno de contos, adormecido na estante livreira cá de casa, deparei-me com um algo curioso e que vai de encontro aos valores que recebi ao longo da minha vida. Trata-se de um pai de família católico, cujo filho de dez anos lhe colocou as seguintes questões: “pai, porque é que nós não somos como os outros? Porque é que acreditamos em Deus, vamos à missa e rezamos a Jesus?”. O progenitor fez uma breve pausa, pensou na escolha da fé em Deus que ele e a esposa haviam feito e, em jeito de parábola, respondeu-lhe com a seguinte estória de L’ Étoille Notre Dame:
Havia um homem rico que gostava de colecionar obras de arte muito raras, tinha tudo na sua coleção, desde Picasso a Rafael. Sentava-se, muitas vezes, com o seu filho, lado a lado, a admirá-las, por forma a despertar-lhe entusiasmo pela pintura. Até que, um dia, o seu país entrou em guerra e o rapaz, como patriota, teve de o ir defender. E de tão corajoso que era, acabou por morrer em combate. O pai foi avisado e ficou tremendamente chocado com a perda de seu único filho. Uma tragédia!
Passado algum tempo, alguém lhe bateu à porta. Era um jovem que segurando um grande pacote, lhe disse: – “o senhor não me conhece, mas eu sou o soldado por quem o seu filho deu a vida. Não só pela minha, como de muitos outros camaradas. Foi ao ele tentar socorrer-nos que uma bala lhe atravessou o coração. Teve morte instantânea! Várias vezes ele me falou de si, da sua paixão e amor pela arte”.
O jovem entregou-lhe o pacote. Era o retrato de seu filho pintado pelo colega, dizendo-lhe: – “sei que não é grande coisa, não sou pintor, mas acho que o seu filho gostava que o tivesse”. E não é que o homem ficou espantado pela maneira como o camarada dele tinha captado a personalidade do seu filhote? De tal modo o viu ali representado, que algumas lágrimas dos seus olhos lhe rolaram pela face. Agradeceu ao jovem e prontificou-se a pagar-lhe o quadro. – “Não senhor, eu é que lhe fico em dívida por tudo quanto o seu filho fez por mim. Isto é apenas um presente meu”. Agradeceu e decidiu expô-lo na sala, em destaque, para que as visitas o vissem antes de admirar as outras valiosas obras d’arte.
Algum tempo depois, o homem faleceu. Promoveu-se um grande leilão de todas as pinturas. A ele acorreram muitas pessoas influentes, todas ansiosas por tentarem adquirir alguma delas para as suas coleções. O leiloeiro bateu com o martelo na mesa e começou por levar a leilão a imagem do filho que estava logo à entrada: – Está em 200€, quem sobe a oferta para este quadro? O silêncio ecoou na sala! Entretanto, uma voz lá no fundo, gritou: – “ó senhor, tanha respeito por todos nós! Viemos aqui por causa das pinturas célebres, passe adiante!
O Comissário do leilão prosseguiu: – “haja ofertas para esta pintura? Será que ninguém quer o filho? “Está a leilão, subam a parada”. Uma outra voz, vinda do fundo da sala, ecoou furiosa: – “não estamos aqui por essa reles pintura, queremos ver é as do Van Gogh, Rembrant…despache-se e traga-as à cena!”. Só que ele continuou: – “o filho, o filho, quem quer o filho?”. Finalmente, uma voz fez-se ouvir no fundo da sala. Era o jardineiro que, sempre, havia tratado do jardim daquela casa senhorial: – “Eu dou os 200€ pelo retrato do menino. Sou pobre, não posso dar mais”.
“Ninguém sobe a oferta?”. – Perguntou o leiloeiro. Fez-se silêncio! Bateu três vezes com martelo e considerou vendido o quadro do filho ao pobre homem. Outra pessoa gritou: – “então? E o resto?”. Resposta do leiloeiro: – “não tem resto, a vontade do falecido pai foi cumprida. Quem levasse o quadro do seu filho ficaria com toda coleção”. E, assim, o humilde hortelão acabou por ficar dono e senhor não só daquele singelo quadro, como de todo o espólio artístico, avaliado em muitos milhões de euros.
Este breve trecho ensina-nos o quão preciosa é a família Cristã para haver uma sociedade equilibrada, em que o amor dos pais pelos filhos é inegociável.