1. Recordo D. António José de Sousa Barroso, um dos corajosos bispos que sofreram com a perseguição à Igreja movida durante a I República. Tornou conhecida, um dia, uma das suas certezas: não morreria de parto nem de medo.
Foi o Bispo que mais se empenhou em que a Pastoral Coletiva, com que os Bispos reagiram à Lei de Separação, fosse dada a conhecer aos fiéis à estação da Missa, pelo que lhe foi movido um processo.
Afonso Costa, ministro da Justiça e Cultos, chamou-o a Lisboa e, depois de o sujeitar aos insultos da populaça, fez sair um decreto em que o declarava «destituído das suas funções de bispo» e «vaga a diocese», «como se a vacância (...) resultasse de falecimento». Concedia-lhe, porém, «em homenagem aos seus serviços no Ultramar e às suas virtudes pessoais, a pensão vitalícia anual de 1200$00 reis».
Por decreto emanado do Ministério da Justiça, publicado no Diário do Governo de 09 de março, foi desterrado da sua diocese, o Porto, por tempo ilimitado.
2. Passou a noite de 07 para 08 detido no quartel-general. A 09 de março seguiu sob prisão para o colégio de Sernache do Bonjardim. De lá passou para a sua freguesia natal, Remelhe, no concelho de Barcelos, onde viveu até regressar ao Porto, a 03 de abril de 1914.
Em Remelhe procedeu a numerosas ordenações na capela de Santiago, que elegeu para sua Catedral de Exílio.
Ainda durante este exílio foi julgado em 12 de junho de 1913 no Tribunal de S. João Novo, no Porto, por se ter deslocado à freguesia de S. Tiago de Custóias (diocese do Porto), a fim de representar o Santo Padre Pio X como padrinho de batismo de um neto de José Joaquim Guimarães Pestana da Silva. Defendido pelo advogado Francisco Joaquim Fernandes, foi absolvido.
Porque se encontrava exilado em Remelhe, o nome de D. António Barroso não figura entre os signatários do Protesto Coletivo, o que o contristou. Em carta dirigida ao Encarregado de Negócios da Santa Sé, escreveu: «Já há dias comuniquei ao Senhor Cardeal Patriarca que se o Governo aplicar qualquer pena aos Prelados que assinaram o manifesto (Protesto Coletivo), protesto que me não fosse aplicada a mim; reclamarei publicamente para que também a mim seja aplicada, pois que com eles sou solidário e da melhor vontade tinha assinado o protesto se tivesse assistido à reunião».
Em 1917 foi condenado de novo ao exílio por haver permitido que algumas senhoras vivessem em comunidade, em Vila Boa de Quires. Passou quatro meses deste segundo exílio no Hotel Avenida, em Coimbra, tendo sido libertado em 20 de dezembro de 1917 pelo governo de Sidónio Pais.
3. António José de Sousa Barroso nasceu em Remelhe, no concelho de Barcelos, a 05 de novembro de 1854.
Aos 19 anos foi estudar para o Real Colégio das Missões Ultramarinas de Cernache do Bonjardim, onde entrou a 03 de novembro de 1873, sendo ordenado sacerdote a 20 de setembro de 1879. Em fevereiro de 1891 foi nomeado bispo titular de Himéria, tendo recebido a ordenação episcopal na Sé Patriarcal de Lisboa a 05 de julho. Nas suas armas episcopais encontra-se o lema «Non sibi sed omnibus» (Não para si mas para todos).
Foi missionário em S. Salvador do Congo, Angola; Bispo em Moçambique; bispo em Meliapor, na índia.
Regressou a Portugal a fim de ser Bispo do Porto, para que foi nomeado a 21 de fevereiro de 1899. Entrou na diocese a 02 de agosto de 1899 e tinha os pobres como «amigos preferidos». No testamento deixaria escrito: «Nasci pobre (o pai era carpinteiro e a mãe, tecedeira), rico não vivi e pobre quero morrer».
Faleceu a 31 de agosto de 1918, com 63 anos de idade.
Os seus restos mortais repousam no cemitério de Remelhe a partir de 05 de setembro de 1918. Encontram-se, desde 1927, numa capelinha construída no mesmo cemitério por subscrição pública promovida pelo diretor do jornal «O Comércio do Porto», Bento Carqueja.
Em 1993 a Diocese do Porto inaugurou o seu processo de canonização que, concluído na fase diocesana, deu entrada nos Serviços da Santa Sé.