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Que fizemos deste tempo suspensivo?

À beira de ser julgado, Jesus regista com mágoa que os Seus discípulos – nem por uma hora – suspenderam o sono (cf. Mc 14, 37). 

A Quaresma e – ainda mais – a Semana Santa constituem uma espécie de tempo suspensivo. Mas que diferenças se notam? Que atitudes e atividades suspendemos?


 

Suspendemos a ingestão de alguns alimentos e porventura de certas palavras, mais agressivas.

Mas este é um tempo para suspender também os excessos de algazarra e folia. Não é para suspender a alegria; é para fermentar a alegria que há de amanhecer em plena noite pascal.


 

As «pegadas carnavalescas» estacionam na Terça-Feira de Entrudo. Na Quarta-Feira de Cinzas demos entrada noutro tempo. 

Como tudo, também o Carnaval tem seu tempo e sua hora (cf. Ecl 3, 1). E, que se saiba, o dia de Carnaval termina às 23h59 de terça-feira.


 

O Advento há muito que se descaracterizou. E a Quaresma começa a ser fortemente desfigurada.

Até os momentos de maior densidade celebrativa são contrafeitos em ornamentos que atraem mais multidões do que peregrinos, na expetativa de gerarem mais ganhos financeiros do que proveito espiritual.


 

Mas, acima, de tudo, este devia ser um tempo para suspender os egoísmos e os ódios que devastam o mundo. 

Não adiantava muito, mas épocas houve em que se respeitavam as «tréguas de Deus». Não se combatia desde o início do Advento até ao termo do Natal nem desde o começo da Quaresma até ao final do tempo pascal.


 

Desta vez e uma vez mais, foi em pleno tempo da Quaresma (28 de fevereiro) que rebentou mais uma «parcela» – e que «parcela» –s da guerra mundial que vampiriza a humanidade, numa escalada imparável de destruição.

«Amai-vos uns aos outros» (Jo 13, 34; 15, 12)? Não falta quem prefira ouvir os que, em toada ameaçadora, ordenam: «A(r)mai-vos uns contra os outros».


 

Entretanto e dado que onde há uma adversidade não deixa de haver uma oportunidade, valorizemos este como um tempo profundamente imersivo.

A Quaresma e a Semana Santa levam-nos a fundear o nosso ser, antes de mais, no mistério de Jesus Cristo. 


 

Por esta altura, há muitas representações cénicas dos últimos dias de Jesus. Podem servir de ambientação para deslumbrar o olhar comovido. 

Mas onde Ele Se torna realmente presente é no Altar. Onde Ele fica realmente presente é no Sacrário. Para ser adorado e encaminhado para os irmãos idosos, pobres e sofredores.


 

Este é um tempo imersivo para mergulhar a nossa fé, tecida de amor, nos locais de ausência. 

Não basta ficar à espera dos que saíram ou nunca entraram.


 

É urgente imergir nas «favelas» da indiferença e da precariedade. Chegou a hora de arriscar. Venha daí uma «pastoral do risco» que anuncie sem temor e acolha sem distinção.

Não capitulemos perante a «ditadura do real». Quem ousar, estará a fazer a sementeira de uma renovada «primavera pascal»!

João António Pinheiro Teixeira

João António Pinheiro Teixeira

31 março 2026