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Naquele tempo e agora

Quando queremos referenciar um momento mais ou menos anterior, que foi importante ou negativo para nós, começamos assim: naquele tempo, fazia-se assim, as coisas eram diferentes ou já se faziam desta ou daquela maneira… Hoje, Domingo, depois de ter participado na Missa de Ramos na Igreja de Nossa Senhora da Paz e de escutar a leitura do Evangelho da Paixão de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo Mateus, resolvi a questão do assunto a tratar nesta coluna de opinião. Tentarei dizer duas ou três coisas sobre o que reflecti do que escutei.

A traição tem muitas nuances. Não trai só quem atraiçoa, engana, falseia, denuncia ou deixa de cumprir uma promessa. Normalmente, somos tentados a julgar Judas Iscariotes, "um dos doze discípulos", como se fossemos muito diferentes. Quem pode atirar-lhe "a primeira pedra"? Será que nunca atribuímos culpa a alguém imerecida e levianamente para nos defendermos a nós próprios numa situação mais ou menos difícil? Não nos acobardamos alguma vez, deixando que outros entregassem terceiros inocentes, contemplando e contemporizando com algum maldizer de alguém só para sermos simpáticos com quem profere uma acusação? Quem nunca deu um abraço ou um beijo de judas? Nunca ficamos, pelo menos, com a dúvida de termos sido um dos que traiu alguém?

E não consideramos decepcionante o comportamento de Pedro, o Apóstolo que viria a ser nomeado o primeiro Papa pelo próprio Jesus, quando O negou repetidamente? Será que nunca mentimos para não nos comprometer-nos com algo errado ou de alguém? E já agora, soubemos sempre defender a Igreja, os seus Ministros, a nossa fé?

Na vida, não há momentos em que juramos fidelidade a alguém e depois falhamos? Quem não ficou alguma vez confortável no sofá da sua casa em vez de ficar junto de alguém que precisava de ajuda? Quem nunca se deixou adormecer enquanto alguém se debatia com um problema?

Jesus fez-se Homem para transmitir o amor e a paz ao Mundo. Todos os Apóstolos sabiam isso. Ainda que pudesse apreciar o gesto de fidelidade do discípulo que procurava defendê-Lo do "servo do Sumo Sacerdote", puxando da sua espada, repreendeu-o. A razão e a justiça não se defendiam com qualquer espada. O eventual incidente constituiria um precedente grave naquele tempo à luz da mensagem de Jesus, tal como os que existem nos dias de hoje. Intimida-se o inimigo com um míssil e uns quantos drones que responde com outros tantos ou ainda mais, numa guerra em que não há vencedores, ainda que alguns declarem vitória.

O Evangelista refere a certa altura (Mt 26, 56) que a prisão de Jesus e todo o enredo aconteceram "para se cumprir o que os profetas escreveram [e que] todos os discípulos, abandonando Jesus, fugiram". Quantos de nós não fugiriam de situações por que passaram os que seguiam de perto o Mestre? Não fugimos já de situações comprometedoras, abandonando pessoas indefesas? Quantas vezes decidimos dar o corpo às balas, defendendo amigos e outras pessoas, arriscando consequências pessoais no emprego, na sociedade em geral? Será que não fugimos demasiadas vezes por medo de represálias, ainda que a situação seja injusta para os acusados? Não nos comportamos tantas vezes como " os sumos sacerdotes e todo o Sinédrio [que] procuravam um falso testemunho contra Jesus, a fim de condená-lo"?

Tal como naquele tempo, o galo canta nas nossas consciências por não fazermos o que está certo e termos lavado diversas vezes as mãos como Pilatos. Os farricocos hão-de ajudar-nos a reflectir nisso e a tomar uma decisão de emenda.

Luís Martins

Luís Martins

31 março 2026