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Prisão domiciliária

 

Estar preso em casa é uma pena judicial que se cumpre no domicílio, em vez de “pagar o crime” na cadeia. Em princípio julgávamos que este regime da prisão domiciliária era um castigo algo suave, isto é, uma espécie de benesse. Nada como provar o fel para ver como ele amarga. Um dia destes o elevador do prédio onde habito, avariou e os mais velhos inquilinos sem pernas para subir ou descer as escadas de serventia, ficaram presos no seu domicílio. No começo nada doeu. A esperança disse que era uma questão de horas. No prédio residem três nonagenários que, por razões óbvias, ficaram a olhar a rua através dos vidros das janelas que, de repente, se transformaram em grades e os compartimentos da casa em celas prisionais: não tão feias, nem sequer tão frias. Estiveram a ver a televisão até ao aborrecimento, viam as árvores a mostrarem os primeiros rebentos que hão de ser folhas, e não lhe podiam cheirar o perfume e puseram-se a cismar, se o que viam também lhes pertencia como direito. Direito que já tiveram e usufruíram. A idade avançada era o seu carcereiro, sem guardas nem vigilantes. Então, com o nariz espetado no vidro que virou grades de prisão, puseram-se a congeminar como é inútil estar vivo, quando se não pode usufruir da liberdade de ir à rua, nem que seja para ter a sensação de que ainda estão vivos. Certamente é assim que se vive em estado vegetativo. Então perceberam, pela primeira vez, que uma prisão domiciliária é uma “gaiola caseira”, é certo, mas não passa de ser uma gaiola. Este sequestro do elevador do meu prédio durou apenas um, ou dois dias. Dias ou eternidade? Chegou para sofrer desta claustrofobia que se enreda nos meandros de ser pessoa na sua totalidade e se encarna no direito de ser livre. Como invejaram os pássaros que demandavam lá do azulino dos céus o pio do gozo da liberdade de ser. Que estranha leveza é esta que faz da tartaruga ter sonhos de águia?? Se se pode sofrer assim apenas em dois dias, pergunto-me que sofrimento não experimentam aqueles que estão em prisão domiciliária A vida passa-lhes ao lado e não a podem apalpar! A expiação de culpa é um caminho doloroso mas o sofrimento sem causa é uma injustiça. Estamos a fazer um suplício onde não há calvário? Será este o destino do homem e do mundo como disse Milan Kundera, em Estranha leveza do ser?? Se o é, não é leve, é bem pesado.

Paulo Fafe

Paulo Fafe

30 março 2026