Nascido e criado numa terra onde, de dois em dois anos, há Procissão de Passos, confesso que sempre me fascinou, e de igual modo me intrigou, a figura da Verónica. E não apenas em virtude do processo da sua escolha ser exigente, mas sobretudo porque nela tudo me inquieta e faz pensar: a veste roxa, a voz timbrada e plangente, a letra da música1 e os gestos que executa: enxuga o rosto ensanguentado de Jesus e mostra-o à multidão, estampado num lenço. Tudo isto assume uma força e uma carga simbólicas dignas de registo, a que não consigo, ainda hoje, ficar indiferente.
Apesar de não ser mencionada nos Evangelhos canónicos (Mateus, Marcos, Lucas e João), a Verónica ocupa um lugar de destaque em (quase) todas as procissões de Passos2. Por regra, canta depois do encontro entre Jesus e sua mãe e volta a cantar em diversos outros momentos da Procissão. O que diz e o que faz é tão pedagógico que – penso eu – ninguém consegue ignorar ou ficar-lhe indiferente.
O texto apócrifo Evangelho de Nicodemos (Acta Pilati)3 refere que uma mulher chamada Berenice (ou Bernice)4 declarou diante de Pilatos: “Eu era a mulher que sofria de hemorragia e fui curada ao tocar o manto de Jesus” (nº 7). Textos apócrifos e lendas medievais posteriores identificaram esta mulher com a Verónica e assim se desenvolveu a ideia de que ela enxugou o rosto de Jesus, a caminho do Calvário, e de que esse rosto ficou impresso no tecido. E foi tão valorizada esta identificação que a cena se tornou a 6ª estação da Via Sacra, dando origem inclusive, na Idade Média, à devoção do “Véu da Verónica”.
A piedade popular encarregou-se de consolidar a personagem e de valorizar esse véu como uma relíquia. Escusado será dizer que diversas cidades garantem possui-lo: Roma (Vaticano), Viena (Áustria), Manopello (centro da Itália) e Alicante (sul de Espanha), entre outras de menor relevo e ainda menor probabilidade.
O nome “Verónica” pode ser uma forma latinizada de Berenice, nome macedónio que significa “portador da vitória” (correspondente à palavra grega phere-nikê), mesmo se a etimologia popular atribui a sua origem às palavras “verdade” (em latim, vera) e “imagem” (em grego, eikon). A ser assim, o próprio nome pode ter nascido da tradição, afirmando que naquele pano se “estampou” a verdadeira imagem de Jesus ou, em alternativa, poderá querer dizer que o véu autêntico é o que se encontra em Roma, pois transmite a verdadeira imagem de Jesus.
A figura da Verónica ganhou ainda mais relevo em virtude das visões da irmã Maria de São Pedro, uma freira carmelita que viveu em Tours (França), entre 1816 e 1848. Em 1844, esta religiosa relatou que, num momento de elevação mística, viu a Verónica a limpar o cuspe e a poeira da face de Jesus, com o seu véu, no caminho do Calvário. A partir daí, dedicou-se à promoção da devoção à Santa Face de Jesus, que foi aprovada pelo Papa Leão XIII, em 1885, e novamente por Pio XII, em 1958. O dia da sua memória litúrgica é a terça-feira de Carnaval e, nesse mesmo dia, em alguns lugares, também se celebra Santa Verónica, apesar de, na maior parte dos casos, se celebrar no dia 4 de fevereiro.
No meio de tantas incertezas, o que se impõe é o sentido e a pedagogia do gesto da Verónica: perante Jesus desfigurado pela dor, pelo sangue e pela humilhação, ela reconhece Deus presente no sofrimento humano; vê valor onde o mundo vê desdita, honra a pessoa mesmo quando está fragilizada. O seu gesto reconhece a dignidade de Cristo e revela compaixão ativa, pois não apenas sente pena, mas age. Manifesta misericórdia concreta diante do sofrimento; amor ao próximo sem cálculos; coragem para ajudar, mesmo quando é perigoso.
A atitude da Verónica sugere que a fé verdadeira se manifesta em gestos pequenos e práticos. Assumindo a defesa do inocente, revela uma fé que não se deixa intimidar e uma resistência pacífica ao mal. Num sentido espiritual mais profundo, podemos dizer que Deus permite que participemos da sua dor redentora e que quem consola o sofredor também encontra nisso consolo.
Por seu lado, o “véu da Verónica”, que apresenta o rosto humano de Jesus, assume-se como a marca do encontro pessoal com Deus e aponta para Jesus, que deixa a sua “imagem” estampada no coração de quem o ama. Sugere ainda que cada pessoa ferida, marginalizada ou oprimida é a verdadeira imagem de Cristo.
Em síntese, a Verónica representa a coragem diante da injustiça, a compaixão num momento de sofrimento extremo; a ousadia de um gesto, simples e pedagógico, que, independentemente da sua historicidade, se impõe pelo seu significado profundo e eterno.
1 “Ó vós todos que passais pelo caminho, olhai e vede se existe dor igual à dor que me atormenta” (Lm 1, 12). Em alguns lugares, o texto ainda é cantado em latim: “O vos omnes qui transitis per viam, atendite e videte si est dolor similis dolor meus”.
2 De todas as Procissões de Passos em que já preguei, só a de Braga não tem Verónica.
3 Não se sabe ao certo a data deste documento, mas presume-se que seja do século IV d. C.
4 Esta Berenice é considerada por muitos estudiosos como a figura que, mais tarde, a tradição ocidental transformou em Verónica.