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Os cristãos (e concretamente os padres) manifestam que são felizes?




 

 


Li, por estes dias, um artigo sobre o tema da felicidade – com o título: ‘a felicidade não é um prémio, é uma prática’ – e achei que poderia ser útil para refletir neste tempo de Quaresma e, em especial, na proximidade à Quinta-feira Santa, quando celebramos, eclesial e pessoalmente, a instituição do sacerdócio ministerial e da eucaristia.

1. A propósito do tema da felicidade talvez convenha enquadrar a questão e, sucintamente, explicá-la.
O ‘dia internacional da felicidade’, comemorado em todo o mundo no passado dia 20 de março, foi instituído pela Assembleia Geral das Nações Unidas no dia 28 de junho de 2012 e tem como objectivo fazer com que as pessoas percebam a importância da felicidade nas suas vidas. A comemoração teve como inspiração o reino do Butão, onde a felicidade é considerada o sentimento mais importante do Produto Interno Bruto (PIB) que foi substituído pelo do ‘Índice de Felicidade Interna Bruta’, na década de setenta.

2. Li no tal artigo e deixo respingos, que servirão para a reflexão posterior.
- A ciência da felicidade nos diz que ser feliz é também aprender a lidar com as emoções negativas, aquelas que nos deixam mais para mais para baixo, como a tristeza, a frustração e a raiva...
- Quando esperamos pela perfeição, para ter tudo certo, estamo-nos a afastar daquilo que queremos.

- O conceito em inglês de ‘thief of happiness’ [ladrão da felicidade] tem cinco fatores que nos roubam a felicidade – controlo, vaidade, cobiça, consumo e conforto [acrescentando]: passividade, procrastinação (adiamento) ou a espera pela perfeição. Muitas vezes, a felicidade é-nos retirada por ações que levamos a cabo sem sequer termos consciência de que o fazemos.
- É uma espécie de autossabotagem de “medo do sucesso” e “daquilo que nos pode acontecer”. São atitudes ou conceitos mentais que adotamos e que nos “afastam dos nossos sonhos”.

3. Embora o texto seja mais longo e explicativo, detalhando cada um dos aspetos enumerados, poderá ser útil parar um pouco sobre o modelo de felicidade que nos está a ser apresentado, referenciado e quase imposto pela cultura dos nossos dias... que não são piores do que os do passado, mas que nos exigem capacidade de autocrítica (pessoal e comunitária), senão mesmo de correção e/ou de inversão de itinerário. Embora cada época vá forjando os seus sinais de felicidade, vamos tentar, de forma sucinta, encontrar alguns aspetos que podem dar uma certa tonalidade de felicidade, mesmo que disfarçando a assunção de não-felicidade:

- a dependência dos bens materiais (casa, carro, roupas, comidas, viagens), condicionando a ‘um quando’;

- bloqueio encapotado de exigência porque ‘ainda não está perfeito’… o projeto, o corpo, a carreira, a vida;

- passividade e conforto excessivo: a felicidade em pausa, numa sensação de vazio;

- a desculpa de que não sou capaz.

Dizia-se no artigo que temos estado a citar: ‘O maior ladrão da felicidade da era digital é a comparação. Comparam-nos com vidas perfeitas que não existem, com corpos perfeitos que não existem e com relações perfeitas que não existem’…



 

4. Olhemos, agora, para os que nos são mais próximos, tanto como cristãos (católicos) em geral, como naquilo que aos padres diz respeito. Pela forma de ser e de estar, percebemos que manifestam serem felizes? Não seremos resultado do ambiente em que vivemos, mais alicerçado nas coisas materiais do que nos valores de índole espiritual-cristã? A vaga do parecer não colhe mais do que a consonância do ser? Captamos serenidade ou inquietação para a conquista do ser visto? Pelo rosto entendemos que não procuram quanto valem (na apreciação dos outros ou na projeção que mostram), mas quanto são? Mesmo com o passar dos anos ainda manifestam sonhos exequíveis ou antes evidenciam desilusão indisfarçável? Os problemas que escutam não deixam marcas que atrapalham a vocação primeira? Não haverá muitos mecanismos de dissimulação de não-felicidade? Até onde irá a confusão entre felicidade e a (dita) ‘qualidade de vida’?



 

5. Desgraçadamente há mais infelizes do que felizes (em qualidade e serenidade) neste tempo…



 

António Sílvio Couto

António Sílvio Couto

30 março 2026