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Quaresma: renovar-se para renovar

A Igreja celebra os sessenta anos do encerramento do Concílio Vaticano II (7 de dezembro de 1965). Para manifestar a sua atualidade e a necessidade de concretizar as suas orientações, o Papa Leão XIV tem vindo a abordar, nas catequeses semanais, os documentos aí aprovados. O Concílio quis renovar a Igreja, lembrando, porém, que nada acontecerá sem uma verdadeira conversão a Cristo.

“Toda a renovação da Igreja consiste essencialmente numa maior fidelidade à própria vocação… A Igreja peregrina é chamada por Cristo a esta reforma perene.” Como instituição humana e terrena, necessita continuamente desta reforma. Assim, a fidelidade a Cristo condiciona tudo o que possa ser programado.

O Papa Francisco, logo na Exortação Apostólica A Alegria do Evangelho, afirmou que a renovação da Igreja é “inadiável”. Contudo, ela só será possível se existir espaço para uma espiritualidade marcada por um permanente desejo de conversão.

Também o Sínodo, ainda em fase de implementação, foi claro. O Documento Final começa por sublinhar que o coração da sinodalidade é a conversão, para a qual “somos chamados pelo Espírito Santo”. E acrescenta: “A renovação da comunidade cristã só é possível reconhecendo o primado da graça. Se falta profundidade espiritual pessoal e comunitária, a sinodalidade reduz-se a um expediente organizativo” (DF 44).

Este alerta tem sido feito repetidamente, mas nem sempre recebe a devida atenção. Há pressa em definir planos e iniciativas. Fala-se de espiritualidade sinodal, mas esta nem sempre orienta verdadeiramente o discernimento.

Neste tempo de Quaresma, importa insistir no trabalho pessoal e comunitário. Precisamos de cuidar da nossa relação com Deus, encontrar tempo para acolher a proposta de Cristo e conviver com Ele, aprendendo um estilo de vida diferente do modo corrente de pensar.

O século XX foi também um tempo de grandes conversões. Não é possível enumerar todas as canonizações recentes, mas, sobretudo a partir do pontificado de São João Paulo II, muitos cristãos foram declarados santos por viverem de modo extraordinário as realidades ordinárias da vida. A santidade tornou-se, de certo modo, uma “santidade de povo”, nascida nas circunstâncias concretas da existência.

Muitas dessas experiências de fé surgiram em contextos dramáticos. O divino passou, não raras vezes, pelos campos de concentração. Aí se escreveram diários, sem intenção de publicação, que, hoje, alimentam a fé de muitos. Recordo apenas duas figuras: Edith Stein e Etty Hillesum.

Vem-me também à mente a frase atribuída a Santo Agostinho, Si isti et istae, cur non ego? — “Se estes e estas, porque não eu?” Se tantos caminharam na senda de Cristo, também nós somos chamados a percorrer esse caminho.

A Quaresma é um tempo de graça que nos orienta para opções de vida fiéis a Cristo. A espiritualidade cristã oferece muitos caminhos, e cada pessoa é chamada a encontrar o seu. Durante muito tempo, a vida espiritual organizou-se em práticas de devoção bem definidas. Portanto, esses meios não devem ser desprezados, pois fazem parte da tradição espiritual da Igreja.

No entanto, é necessário ir mais longe. Como recorda o Papa Francisco, “Deixa que a graça do teu Batismo frutifique num caminho de santidade. Deixa que tudo esteja aberto a Deus” (Gaudete et Exsultate, 15).

Quando Deus ocupa verdadeiramente o primeiro lugar e assumimos o estatuto de candidatos á santidade, a renovação começa a acontecer. Não temos outras alternativas Como consequência ,a transformação das comunidades e da sociedade também acontece. Poderemos não encher igrejas. Mas a lógica do fermento emerge e vai dar vida, talvez para os vindouros, a uma Igreja mais comunitária e missionária e a uma sociedade mais justa , fraterna, igual e inclusiva.

A Igreja foi diferente, nem sempre em consonância com o pensar do mundo, mas sempre com uma incidência, lenta e progressiva, em todas as realidades terrestes. O lema do atual Papa , Leão XIV, torna-se indicador de caminho. “ In illo uno,unum “. Sendo um n´Ele, somos um entre nós e transparecemos a Sua vida e mensagem

Os santos marcaram as suas épocas. Com eles, a Igreja foi diferente e o mundo tornou-se mais justo e fraterno. Foram muitos; no entanto, cada um respondeu pessoalmente ao chamamento de Deus. Hoje, precisamos igualmente de uma santidade vivida nas comunidades.

Paul Ricoeur dizia: “A vida interior é a fonte das nossas relações exteriores.”. Este pensamento pode não ser linear mas desafia a acreditar no seu conteúdo. Por ele podemos compreender que o caminho quaresmal é um convite a renovar-se para renovar. Pretender o contrário é uma falácia e engano.

D. Jorge Ortiga

D. Jorge Ortiga

17 março 2026