twitter

Duas pontes, na minha vida

Uma cascata de luzes). Numa noite do verão de 2000, no ano anterior à queda da ponte do Douro, eu estava lá, admirando os “efeitos especiais” luminosos, que pareciam transformar a ponte, numa cascata de luzes brancas.

Um filme sobre a queda da ponte de Entre os Rios). Aparece agora, 25 anos depois, um filme ficcional sobre o desastre da queda da “ponte Hintze Ribeiro”, ocorrido a 4 de Março e que fez 59 vítimas. Foi no interminavelmente chuvoso inverno e primavera de 2000-2001. Uma das actrizes será Lúcia Moniz, à época uma desconhecida filha do casal açoreano José Alberto Moniz-Mª do Amparo, bastante icónico na música ligeira dos anos que se seguiram ao 25 de Abril de 74; mas que depois terminaria em divórcio. A ponte datava do final da Monarquia e levava o nome de um famoso 1º ministro do malogrado grande rei D. Carlos. Era o atravessamento necessário do rio Douro, logo a seguir ao ponto onde nele conflui o seu célebre e poderoso (hoje tão domado e estragado) Tâmega. Rio este, cuja origem etimológica (céltica) do nome é equivalente à do Tamisa; ou à do húngaro-romeno Timis (em húngaro, Temesz), do qual deriva o nome da cidade de Timisoara (Temeszvar), coração da revolta que em 91 levou ao fuzilamento do idoso casal Ceausescu e à transição do Comunismo para uma Democracia não pouco corrupta.

Eu passei lá na véspera…). Para ser preciso, passei apenas na margem norte, ali ao lado, mas segui de Entre os Rios pela estrada para Melres e Gondomar, ao longo do Douro. Atravessar por cima da ponte, isso fora cerca de uma semana antes. Para mim, nada de raro ou estranho, uma vez que, à época, a zona de Castelo de Paiva era (ainda será) uma das mais belas de Portugal. Para mais, anos antes eu namorara em Paiva com duas beldades (uma de cada vez, é claro); 2 romances espaçados por mais de 8 anos, chamando-se ambas Fernandas. Com a 1ª delas, namorei mesmo em cima da ponte que cairia (e que hoje foi substituída por uma outra, de pouco gosto); ao lado da qual, implantaram a imagem daquele gigantesco e esguio anjo dourado.

Naquele inverno, nunca mais parava de chover). No Porto, chovia todos os dias e todas as noites. Poucas pausas havia; seguidas de fortes aguaceiros. Ao ponto de eu ter escrito aqui no DM, um texto com o título “A interminável passagem da monção” (em 16 de Fev. de 2001, ca. de 15 dias antes do desastre…). Inverno assim, nunca vi nem voltei felizmente a ver. Falava-se de alterações (um buraco) na camada do ozono (no Ártico); e do aparecimento do “el Niño”, no sistema de nuvens a oeste do sul dos Andes. Ou das queimadas amazónicas ou em Bornéu. E em Meteorologia, tudo mexe com tudo…

As verdadeiras causas da queda da ponte). Nos últimos anos, o piso estava de tal modo degradado que chegou a haver vários buracos ou fendas que davam para se ver a água do Douro (!), e que logo foram tapados. Ora isso indiciava que o resto, sobretudo os pilares, merecessem uma imediata inspecção; a qual, só foi feita depois da tragédia, notando-se, salvo erro, que 2 deles já não estavam bem. Havia lá, contudo, algo (um “areio”, uma grande extracção de areia do leito) que dava para espantar quem passasse no extremo-sul da ponte. Qualquer tolo percebia que, cedo ou tarde, 1 ou mais pilares ficariam “descalços” e poderia acontecer um desastre. Mesmo em invernos normais; quanto mais num inverno como aquele, em que as águas barrentas de todos os vales e desfiladeiros que confluem (desde Espanha) no Douro, foram algo nunca visto. E assim aconteceu… Note-se que ali, na foz do Tâmega, não faltava areia para tirar; o rio era lindíssimo e nos verões secos, havia até alguns cénicos bancos de areia. Que o “areio” comeu…

O Drina, na Bósnia, um rio que aliás, nunca visitei). Este poderá ser um dos 2os mais importantes rios da minha vida, o que soará estranho. Porém, eu explico. Mesmo antes das minhas 4 viagens terrestres aos Bálcãs (incluindo uma, até ao sul da Grécia), eu tinha lido um famoso livro do escritor iugoslavo (bosníaco) Ivo Andritch (1892-1975), prémio Nobel em 1961. Era a “Ponte sobre o Drina”; em serbo-croata, “Na Drini, tchúprija”; uma crónica da vila de Vishegrad e da sua ponte. Ponte de pedra que foi mandada fazer por Mehmet Paxá, um grão-vizir do Império Turco, nascido na vizinha aldeia de Sokolovac (em 1506). Este livro capturou à época a minha imaginação. E quando com os meus pais visitei a região, num verão quente bem antes de a Iugoslávia se ter esfacelado, lembro-me de passar nas margens do Neretva, as lavadeiras de cabelo liso e negro, o céu azul, o calcário branco da Dalmácia, as moitas e bosques nas encostas, Mostar e a sua ponte (que a guerra mandaria abaixo…). E depois a costa, até ao Montenegro e à Albânia.

Eduardo Tomás Alves

Eduardo Tomás Alves

10 março 2026