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OS DIAS DA SEMANA “Renunciar às redes sociais é a melhor maneira de renunciar à loucura do nosso tempo”

 


 


 

A lista de textos sobre os problemas causados pelas redes sociais e pelo uso excessivo dos smartphones publicados na imprensa portuguesa e estrangeira nestes dias mais recentes é longa. Detalhá-la seria enfadonho. Os jornais e revistas nacionais e internacionais têm conferido um amplo destaque às iniciativas que, em diversos países, incluindo Portugal, têm sido promovidas para limitar o acesso dos mais novos às redes sociais. As razões para o fazer, assim como os conselhos para uma desintoxicação digital, abundam.

“Libertar-se do smartphone”, incentivava-se em toda a primeira página do jornal Courrier International no início deste mês. Na quinta-feira, a revista americana The New Yorker publicava um texto sobre “como largar o telemóvel” (“How to break up with your phone”), título de um livro da jornalista Catherine Price. O penúltimo número da revista francesa Le Point incluía um dossier sobre “o impacto das redes sociais nos jovens” que terminava com um conjunto de conselhos para “pais desamparados”. A última das recomendações formuladas pela pedopsiquiatra Lola Fourcade é a mais custosa de seguir: “Dêem o exemplo”. A dificuldade, como bem se reconhece, decorre de os adultos estarem, por vezes, “bem mais intoxicados” do que os mais novos.

Raras são as novidades que se encontram nas sugestões dos autores que, periodicamente, têm voz nos jornais. Não interessa saber quem subscreveu as primeiras exortações, mas um dos mais contundentes foi Jaron Lanier, um cientista computacional e especialista em realidade virtual, conceito que tem a fama de ter cunhado.

Na obra Dez argumentos para sair das redes sociais imediatamente (Ten arguments for deleting your social media accounts right now. Nova Iorque: Henry Holt and Company, 2018), Jaron Lanier enuncia e aprofunda os motivos por que as redes sociais se apresentam tão nefastas. O tempo não tem cessado de lhe dar razão.

Expostos com grande clareza, os “argumentos para sair das redes sociais imediatamente” são aparentemente simples:

“As redes sociais estão a converter-te num idiota”.

“As redes sociais estão a minar a verdade”.

“As redes sociais estão a esvaziar de conteúdo tudo o que dizes”.

“As redes sociais estão a destruir a tua capacidade de ser empático”.

“As redes sociais fazem-te infeliz”.

“As redes sociais não querem que tenhas dignidade económica”.

“As redes sociais tornam impossível a política”.

“As redes sociais aborrecem a tua alma”.

Estarem também a fazer-nos “perder o livre arbítrio” seria razão suficiente para um imperativo de Jaron Lanier, que constitui o primeiro argumento para as largar imediatamente: “Renunciar às redes sociais é a melhor maneira de renunciar à loucura do nosso tempo”.
O que nos ameaça não é a Internet, nem os smartphones, diz o autor. O perigo encontra-se no modelo económico das redes sociais que obtêm lucros dos clientes que estão prontos a pagar para modificar o comportamento de alguém. É por isso, diz ele, que a eficácia de uma publicidade não é aferida pela quantidade de produtos vendidos, mas pelo empenhamento dos consumidores online, ou seja, pelo modo como o comportamento deles corresponde aos apelos das marcas.
Jaron Lanier propõe, para designar o problema, o acrónimo de Behaviors of Users Modified and Made into an Empire for Rent, BUMMER. A modificação do comportamento dos usuários posto ao serviço de um império rentista é trabalhada pela “máquina estatística que vive nas nuvens computacionais”. O dispositivo matemático, explica Jaron Lanier, caracteriza-se pela aquisição da atenção “para benefício dos idiotas”; por se imiscuir em todos os domínios da vida de toda a gente; por atafulhar de conteúdos a vida das pessoas; por dirigir o comportamento das pessoas “da maneira mais sibilina possível”; por “meter dinheiro ao bolso, deixando que os piores idiotas enganem dissimuladamente toda a gente”; e por engendrar “uma sociedade falsária”.

Prescindir das redes sociais, mas continuar a ler notícias online, é o que preconiza Jaron Lanier. Para ele, o mais conveniente é ir directamente aos sites de notícias (em vez de receber notícias através de canais personalizados) e, sobretudo, aqueles que contratem jornalistas de investigação. Jaron Lanier recomenda ainda que se conheça a linha editorial de cada site informativo, o que apenas é possível se a eles se aceder directamente. Fazê-lo diariamente em três sites de notícias por dia permite estar mais bem informado e mais rapidamente do que se se usar as redes sociais. Escapar ao vendaval de desinformação é um imperativo de primeiríssima importância.

Eduardo Jorge Madureira Lopes

Eduardo Jorge Madureira Lopes

8 fevereiro 2026