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A tempestade Kristin e o luto que fingimos não ver

A passagem da tempestade Kristin por Portugal deixou imagens difíceis de esquecer: telhados arrancados, árvores caídas, carros destruídos, famílias sem eletricidade nem água, estradas cortadas, populações isoladas. Durante horas, muitas pessoas viveram com medo dentro da própria casa, a ouvir o vento bater nas janelas e a rezar para que nada cedesse.

E, no entanto, mal o vento acalmou, instalou-se outro silêncio: o da minimização. “Foi só uma tempestade, agora é seguir em frente.”

Este discurso é conhecido. É o mesmo que surge sempre que a perda não encaixa nos critérios socialmente aceitáveis do luto porque, para muitos, só há luto quando há morte. Tudo o resto deve ser rapidamente resolvido, esquecido, ultrapassado, como se o sofrimento tivesse prazo curto e utilidade limitada.

Mas perder a segurança não é pouco. Perder a sensação de abrigo não é irrelevante. Perder, numa noite, aquilo que levou anos a construir não é um detalhe. Há perdas que não cabem em estatísticas, mas que deixam marcas profundas na forma como as pessoas passam a habitar o mundo.

Do ponto de vista sociológico, a tempestade Kristin produziu algo muito claro: uma rutura brusca na continuidade da vida quotidiana. E toda a rutura desta natureza gera luto: um luto sem funeral, sem reconhecimento e sem tempo autorizado para existir.

O que se pede às pessoas afetadas é eficiência emocional: limpar, reparar, tratar de seguros, voltar à normalidade. Não há espaço para o medo vivido, para a sensação de desamparo, para a exaustão que fica depois. A mensagem é simples e violenta: aguenta, podia ter sido pior.

Mas há algo ainda mais grave nesta narrativa: ela esconde desigualdades.

Como em qualquer situação de perda, a calamidade não afeta todos da mesma forma. Quem vive em casas frágeis, quem tem menos recursos económicos, quem depende de serviços públicos instáveis sofre mais, perde mais e recupera mais devagar. Para uns, a tempestade durou horas. Para outros, prolonga-se durante meses, sob a forma de ansiedade, insegurança e instabilidade contínua.

Não foi apenas a força do vento que causou estragos. Foi a fragilidade estrutural de um país que insiste em reagir depois, em vez de cuidar antes. Um país que normaliza o improviso e trata a prevenção como luxo.

Continuamos a chamar “fenómeno excecional” a eventos que se repetem. Continuamos a investir mais na gestão da emergência do que na prevenção. Continuamos a depender da boa vontade dos bombeiros, dos técnicos exaustos e da solidariedade entre vizinhos para compensar falhas estruturais que são coletivas e políticas. E depois admiramo-nos do cansaço social.

Talvez seja tempo de dizer o óbvio: um país entra em luto quando percebe que aquilo que julgava seguro afinal não é. E esse luto não se resolve com discursos de normalização nem com apelos à resiliência vazia.

Reconstruir não é apenas arranjar telhados. É devolver segurança, previsibilidade e dignidade às pessoas. É reconhecer a perda, aprender com ela e transformá-la em responsabilidade coletiva, em vez de a empurrar para o esquecimento até à próxima tempestade.

Enquanto insistirmos em tratar estas calamidades como episódios passageiros, estaremos apenas a acumular lutos não reconhecidos. E um país que não reconhece as suas perdas acaba, inevitavelmente, por viver permanentemente ferido.

Clarisse Queirós

Clarisse Queirós

7 fevereiro 2026