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Tempos difíceis que vivemos

Vivemos tempos difíceis pela sua complexidade e indefinição em termos familiares, sociais e culturais; e tempos estes em que o individualismo, o consumismo, o hedonismo, o egoísmo e o relativismo grassam; e esta realidade não é de modo algum favorável às manifestações de solidariedade, de partilha e de afetividade.

E, se pensarmos nas ideologias políticas que se vão impondo pelo seu populismo, totalitarismo, estalinismo, demagogia e autocracia, a situação piora muito; e deixa mesmo de haver tempo e modo para o exercício da cidadania ativa que imponha e mantenha uma saudável e abrangente coesão social.

Adivinham-se, pois, sociedades onde os cidadãos mais vulneráveis, mais frágeis e incapacitados não vão ter o espaço e o lugar de que precisam no seu exercício ativo da vida democrática; e, assim, acabarão por ser elementos incómodos e obstaculizados nos programas de governação, onde, claramente, a sua quota-parte social será a menos valorizada e recompensada.

Estou a pensar no grupo de cidadãos que igualmente compõem essa realidade social: as crianças, os deficientes e os velhos; sim, evidente que os velhos e deficientes ou diferentes não terão o lugar que precisam e a que deviam ter direito, como cidadãos efetivos, mesmo que à margem das exigências sociais para as quais se não candidatam, nem reclamam, pois lhes falta o exercício efetivo de cidadania.

Lembro-me, muitas vezes, quando era aluno do Ensino Primário, da história que vinha no livro de Leitura da 4.ª Classe, onde o filho pegava no pai, velho e acabado, e, entregando-lhe uma manta para se agasalhar do frio, o levava ao monte onde ele aguardava o seu fim de vida; ora, esta realidade pode acontecer, hoje em dia, com a aprovação do uso da eutanásia que já baila na cabeça dos políticos, que, embora sendo mais cruel e desumana, desempenha bem o papel deste episódio que retrata o destino a dar aos velhos, deficientes e incapazes das sociedades modernas.

Pois bem, se pensarmos com objetividade e crueza, a aprovação desta forma de pôr fim à vida, através do uso da eutanásia, acaba por estar à mão de qualquer sociedade mal formada, como arma ao serviço fácil e rápido de eliminação, sobretudo dos mais velhos; e, para que tal aconteça, apenas, basta um momento de convulsão social e política mais grave que reclame a resolução da situação aplicando esta arma letal.

Depois, temos de pensar que os anseios, impulsos e valores de qualquer ação política, mesmo em regimes democráticos e liberais, muitas vezes tendem a ser, na mente de muitos políticos, armas de poder e ação letal; e, mormente, quando tais políticos não respeitam e legitimidade, transcendência e verdade do povo que dirigem e governam, pondo de lado ou mostrando-se alheios aos seus anseios e necessidades.

A história do nosso mundo está, infelizmente, repleta de maus exemplos de ações de políticos que passaram e passam, agilmente, por cima de todas as legitimidades, liberdades e verdades dos povos, impondo através de violências, guerras e injustiças, a sua liquidação total; e isto quer fosse em sua defesa, quer na imposição do seu orgulho próprio, quer na conquista do poder a todo o preço e proveito.

Por isso, não podemos descurar ou ignorar estas verdades e, muito menos, como tanto se vê por esse mundo fora, consentir o exercício de poder que lhes não pertence quando usurpado e ilegítimo; o que acontece sobretudo através do recurso indevido à força e à violência sobre o povo inocente e indefeso.

Penso que tempo é de refletirmos sobre como vai a nossa Democracia, quanto à sua legitimação, objetividade, qualidade e fiabilidade; e pode este bem ser um bom momento de tomarmos decisões e compromissos de a reabilitar quanto aos seus objetivos, qualidades e princípios.

Então, até de hoje a oito.

Dinis Salgado

Dinis Salgado

6 maio 2026