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O dilema do centro-direita na segunda volta

A segunda volta das eleições presidenciais coloca muitos eleitores portugueses perante uma escolha difícil, sobretudo aqueles que se situam no campo da social-democracia de centro-direita, da democracia social e da democracia cristã. Não é uma escolha confortável, nem corresponde, para muitos, à sua preferência natural. Entre um candidato socialista, ainda que moderado, José Seguro, e André Ventura, líder de um partido que se apresenta como força de rutura com o sistema político tradicional, surge a pergunta essencial: votar em quem? Ou optar pela abstenção?

Este não é um debate sobre programas económicos detalhados, nem sobre opções clássicas de esquerda ou direita. É, antes de mais, uma reflexão sobre o papel do Presidente da República, sobre o tipo de relação que cada candidato propõe com as instituições e sobre a forma como encaram a democracia representativa.

José Seguro representa uma área política diferente daquela em que se situam os eleitores de centro-direita. Defende uma maior intervenção do Estado e uma visão social distinta em vários domínios. No entanto, pertence a um espaço político com longa tradição democrática, habituado à alternância de poder, ao compromisso institucional e ao respeito pelas regras do jogo constitucional.

André Ventura, por sua vez, tem construído um discurso fortemente crítico em relação ao funcionamento do sistema político, aos partidos tradicionais e a diversas instituições. Essa crítica encontra eco em muitos cidadãos que se sentem afastados da política, desiludidos com décadas de promessas não cumpridas e preocupados com problemas reais, como a insegurança, a corrupção ou a perda de confiança no Estado. Ignorar essas inquietações seria um erro.

Ao mesmo tempo, há quem tema que um discurso excessivamente polarizador, centrado no confronto permanente, possa acentuar divisões e dificultar o papel agregador que se espera do Presidente da República. A chefia do Estado exige, por natureza, uma capacidade de moderação, de diálogo e de construção de pontes entre diferentes sensibilidades.

É precisamente aqui que surge o dilema para o centro-direita democrático. Esta tradição política sempre colocou a defesa da dignidade humana, da liberdade, do pluralismo, da iniciativa privada e das instituições no centro da sua ação. Nasceu, em grande medida, da experiência histórica de sociedades que sofreram com extremismos e aprenderam o valor da estabilidade democrática.

Votar em José Seguro não significa abdicar das convicções de centro-direita, nem aceitar as suas propostas. Significa reconhecer que ele se move confortavelmente dentro do quadro constitucional e que, enquanto Presidente, tenderá a exercer uma magistratura de equilíbrio.

Votar em André Ventura, para alguns, pode ser visto como um voto de protesto, uma forma de sinalizar que o sistema precisa de mudanças profundas. Para outros, levanta dúvidas quanto ao estilo e à forma como essas mudanças seriam conduzidas. Na realidade, nem o próprio deseja verdadeiramente ser eleito, o que mais lhe importa é alcançar uma votação que lhe permita afirmar-se como o líder da direita em Portugal e tornar-se no próximo primeiro-ministro.

E a abstenção? Em condições normais, é uma opção sempre possível. No entanto, numa segunda volta presidencial, onde apenas dois candidatos disputam a vitória, a abstenção acaba por ter um efeito prático: deixa que outros decidam por nós.

Talvez a pergunta decisiva não seja “quem representa melhor a minha ideologia?”, mas sim “qual das opções oferece maiores garantias de estabilidade institucional e respeito pelas regras democráticas?”.

A história europeia mostra que, em momentos semelhantes, forças políticas diferentes foram capazes de colocar em primeiro lugar a defesa da democracia no quadro constitucional vigente, mesmo quando isso implicou escolhas difíceis e pouco entusiasmantes.

Para um social-democrata de centro-direita, o voto nesta segunda volta pode não ser um voto de paixão, mas pode ser um voto de responsabilidade. Um voto que parte da consciência de que a democracia é um bem precioso, imperfeito, mas insubstituível. E votar num socialista não é a perfeição, que também não existe em política.

No fim, cada eleitor decidirá segundo a sua consciência. Mas talvez valha a pena recordar que as democracias não se mantêm apenas por inércia: sobrevivem porque, em momentos críticos, cidadãos de diferentes quadrantes escolhem protegê-las.

Carlos Vilas Boas

Carlos Vilas Boas

29 janeiro 2026