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Por Entre Linhas e Ideias

Será a maldade uma força que também move o ser humano? Esta semana trago um tema que, estou certo, inquieta muitos leitores e que raramente deixa alguém indiferente. Falo da violência, da maldade e da estranha facilidade com que o ser humano, apesar de toda a sua inteligência, parece inclinar-se tantas vezes para o lado mais irracional de si mesmo.

Como é habitual neste espaço, recorro mais uma vez à mitologia para esclarecer uma questão premente do nosso tempo e para nos ajudar a compreender esta inquietação antiga. Conta a lenda que, ao abrir uma caixa proibida, Pandora libertou para o mundo todos os males que ainda hoje nos acompanham, o ódio, a inveja, a agressão e a destruição. Desde a Antiguidade, esta narrativa simbólica nos lembra uma verdade desconfortável, a de que o mal parece estar sempre à espreita, pronto a aparecer quando menos esperamos. Mas será a maldade apenas um acaso da existência ou fará parte da própria condição humana?

Estas perguntas incómodas acompanham a filosofia desde as suas origens. Já Aristóteles se interrogava sobre a natureza moral do ser humano e sobre a tensão permanente entre a razão e os impulsos mais agressivos que também temos. Mais tarde, no início da modernidade, Hobbes defenderia que, sem leis e regras, viveríamos numa “guerra de todos contra todos”. Rousseau, em pleno Iluminismo, viria propor a ideia oposta, sustentando que é a sociedade que nos desvia de uma bondade natural.

Infelizmente, não precisamos de análises profundas para perceber como a violência está presente à nossa volta. Basta olhar para o futebol, esse espaço que deveria ser de celebração e de encontro e que tantas vezes se transforma num cenário de ódio irracional. No fim de semana passado, no jogo entre o FC Marinhas e o CD Celeirós, a contar para a Taça da Associação de Futebol de Braga, voltámos a assistir a confrontos e a cenas lamentáveis, que acabaram por ter um desfecho trágico com a morte de um segurança na sequência dos incidentes. Também no encontro entre adeptos do Vitória de Guimarães e do Futebol Clube do Porto surgiram episódios de agressões e de hostilidade gratuita. Que prazer obscuro encontra alguém em transformar um simples jogo num campo de batalha?

O problema é que esta agressividade não se limita aos campos de futebol. No plano internacional, vemos diariamente povos contra povos, países contra países e guerras que parecem não ter fim. Como escreveu Hannah Arendt, “a violência começa onde termina a palavra”, e é precisamente isso que continuamos a testemunhar. A invasão, a ameaça militar e o desprezo pela vida humana persistem como marcas da política mundial. Mudam os protagonistas, mas repete-se a mesma lógica primitiva de sempre, resolver conflitos pela força e impor pela violência aquilo que deveria ser discutido pelo diálogo.

Também nas escolas a situação se tornou preocupante. Crescem os relatos de agressões entre alunos, de humilhações filmadas e partilhadas e de comportamentos bárbaros que nos deixam perplexos. Lugares que deveriam ser espaços de aprendizagem e crescimento humano transformam-se, por vezes, em palcos de violência. Onde falhámos enquanto comunidade educativa e humana para que a violência se torne, aos olhos de alguns, uma forma normal de resolver problemas?

Talvez parte da explicação esteja naquilo que o escritor austríaco Robert Musil analisou, de forma brilhante, no livro Como Reconhecer um Estúpido (num Mundo Cheio Deles), que faz parte da minha biblioteca pessoal. Musil lembra-nos que “a estupidez não é falta de inteligência, mas falta de consciência moral e de sentido de responsabilidade”. Esta é uma ideia a refletir, porque revela que o mal nasce muitas vezes de uma incapacidade de pensar e de avaliar as consequências dos próprios atos. A estupidez, sempre que se impõe com arrogância, transforma-se facilmente em porta aberta para a maldade e para a crueldade que temos assistido.

Numa leitura recente de um livro de um dos meus filósofos contemporâneos preferidos, Slavoj Zizek recorda, em Violência, que “há uma violência subjetiva que vemos e condenamos, e uma violência sistémica que, por ser silenciosa, muitas vezes aceitamos como natural”. Esta reflexão é perturbadora, porque revela que o mal não está apenas nos atos extremos, mas também nos exemplos que esta crónica apresenta. Cada episódio de agressão deve ser entendido como um alerta de que o bem depende de educação, cultura e responsabilidade cívica.

Convido os leitores a levar mais a sério aquela máxima de Sócrates segundo a qual “ninguém faz o mal voluntariamente”. Pode parecer uma visão otimista, mas obriga-nos, a todos, a procurar as causas profundas da violência e a não desistir da educação ética e humana das novas gerações, para que não sejamos apanhados por uma estupidez que, disfarçada de normalidade, acaba por ser aceite coletivamente.


 

Se temos tanta inteligência e sensibilidade, porque insistimos na estupidez e na maldade?


 



 



 

Eugénio Oliveira

Eugénio Oliveira

21 janeiro 2026