Terminou o ano jubilar sob o signo da Esperança. Como “peregrinos” muitos cristãos nas suas dioceses foram às sedes episcopais, refontalizar a sua fé e receber as indulgências que a Igreja concede aos fiéis. Talvez a esperança seja uma das virtudes, de que mais precisamos cultivar diante de muitas tensões e guerras que nos assustam.
Se é verdade que o medo revela e mostra o que o homem não pode fazer, a esperança revela o que o homem pode fazer, olhando mais além e ser aberto ao futuro como girassol voltado para um foco de luz no meio do desespero, da confusão e do agnosticismo, ou ateísmo camuflado, compete-nos olhar a mitologia grega expressa no mito de Faetonte estudado a este propósito.
Citando o mito escreve José Miguel Fraga Carneiro em Sapatos de Deus o seguinte:
A mãe de Faetonte revelou ao seu filho, ainda na juventude, que ele era filho de Hélio (o deus do Sol). Faetonte foi então ter com ele, e Hélio, para compensar a sua ausência paterna, concedeu-lhe um desejo. Em plena irreverência e para demonstrar a superioridade em relação ao seu próprio pai, pediu-lhe que deixasse conduzir o carro do sol, puxado por carros alados, durante um dia. Não querendo faltar à sua palavra, Hélio concede-lhe o desejo, e Faetonte começa a sua aventura…
A princípio, tudo corre bem, mas aos poucos Faetonte, por falta de experiência, começa a perder o controlo da carruagem do sol, ora subindo demasiado alto, e queima partes das constelações de estrelas, ora descendo demasiado baixo e queima porções da terra.Tendo perdido o controlo da carruagem, o próprio Zeus (o pai dos deuses) vê-se obrigado a matar Faetonte com um raio, fazendo-o cair por terra, e restabelecendo assim a ordem cosmológica provocada.
Sem interpretações políticas redutoras, a hermenêutica é bem clara: quando se tenta assumir o papel reservado aos deuses, as coisas nem sempre correm bem, até ao ponto de se destruir a si próprio e toda a realidade terrena. E o citado autor conclui: talvez esta seja uma das metáforas mais pertinentes na descrição da modernidade; quando o homem pensa que pode controlar tudo, até conduzir a carruagem do sol (“que é da responsabilidade dos deuses”) a tragédia pode acontecer. Isto significava para os gregos o que hoje se esquece numa perspectiva cristã: O humano deve saber ocupar o seu lugar, e respeitar o lugar de Deus. Por esse motivo, é que o humano contemporâneo precisa de ser consciente deste facto: uma mera esperança antropológica pode levar à destruição do próprio ser humano. Daí só uma esperança cristológica pode restabelecer o caminho correcto da Humanidade, porque só Cristo é o homem perfeito e, se Deus é a fonte de verdadeira esperança, então Paulo pode dirigir-se aos Efésios advertindo-os de viverem estranhos para as alianças de promessas, sem esperança e sem Deus neste mundo(Ef2,12).
Na encruzilhada do mundo de hoje, com tantos prazeres, horrores, perfumes e sabores, talvez seja uma boa reflexão. Já santo Agostinho o sentencia: “por enquanto a nossa vida é só esperança, mas depois será a eternidade”. A crise de fé de hoje é uma crise de esperança (Moltmann) de olhos vendados à procura do Sol.
Sem dúvida a esperança é “ambiguidade”mistura de bem e de mal, disfarçado, ou oculto, escondido como numa caixa de Pandora: contém diversos males, mas é contudo um bem preservado, porque foi um mal que não se espalhou pelo mundo com o intuito de prejudicar os homens.
Dado que a vida é composta de bem e mal,altos e baixos, o humano tem de ter esperança no caminho da vida presente. Uma espécie de consolação, de certo optimismo, pois uma difícil situação presente não será definitiva, mas temporária. Será o homem de hoje capaz de viver nesta esperança, não como “analgésico” mesmo baseado na Inteligência Artificial, ou alibi, pois nem tudo depende de nós, mas das condições e de Deus acima de tudo?