A expressão popular aplica-se aqui com propriedade. A afirmação do primeiro-ministro “vai continuar no Governo”, referindo-se à titular da pasta que superintende o Sistema Nacional de Saúde (SNS), é própria de um teimoso persistente e significa que os problemas da Saúde vão continuar, não se sabe por quanto mais tempo, se é que algum dia o Executivo vai resolvê-los de vez.
Teimosamente, a Ministra, não sei se por birra, caturrice ou insistência irracional, não será substituída. Quem o assegurou foi ela própria, primeiro, e o chefe do Governo, depois, com aquela afirmação peremptória que não deixa dúvidas. Ambos o fizeram seguros de si, a primeira, certamente com as costas quentes, e o segundo, ciente de que é quem manda, embora eu esteja convencido de que ninguém que pediu a demissão da ministra da Saúde tenha querido usurpar as funções do primeiro ministro, tão só fazer-lhe ver o quão prejudicial será a continuidade da mesma.
Todos os partidos da oposição formularam o pedido de substituição e quase todos os candidatos à presidência da República fizeram o mesmo. Uma coincidência rara que não pode deixar de ter um significado muito forte. Apesar disso, Luís Montenegro continua a ficar na dele, não sei se totalmente convencido da sua razão ou se por uma mania qualquer de superioridade. Não demite Ana Paula Martins, ponto, não vale a pena falar mais disso. Mas, pode ter a certeza de que se continuará a falar.
Há-de haver uma explicação que o primeiro-ministro não revela para não demitir a ministra. Pessoalmente, arriscaria uma ou outra. Por exemplo, que a ministra até tem a solução, mas o ministro das Finanças não se chega com o dinheiro que o plano precisa; ou então, que as coisas não se podem resolver de forma tão simples quanto se propalou na campanha eleitoral e não se quer agora admitir isso. Seja como for, perante o exagero da demora, o estado de crise em vários hospitais e a triste realidade de estarem a nascer crianças em ambulâncias e nas ruas e, pior, a morrer cidadãos enquanto esperam por serviços de emergência médica que não chegam para salvar quem os pede ou necessita deles, nenhuma daquelas duas hipóteses parece colher.
Certo é que quase todos vêem o que o primeiro-ministro não vê e declaram que a construção do SNS se está a desfazer. O pronunciamento de vários agentes políticos é este: a ministra é um “pára-raios” para Montenegro; a situação na saúde é “indigna” dum país; o que se passa é “uma grande irresponsabilidade”; há “ingovernabilidade em alguns hospitais”; ou então, “a incompetência não pode custar vidas humanas”. Haverá outras afirmações, que não registei, que vão no mesmo sentido.
Montenegro acha isto tudo um exagero, ou talvez não. E digo “talvez não” porque acredito que o primeiro-ministro só não demitiu ainda a ministra da Saúde porque ele próprio não tem mesmo solução para os problemas da Saúde, nem consegue convencer ninguém que a possa ter a aceitar o desafio de tomar as rédeas do ministério. Se o primeiro-ministro não vê mesmo o que se está a passar, talvez não fosse desacertado que alguém próximo lhe aconselhasse uma consulta de oftalmologia, mas no privado, que no público não a vai conseguir tão cedo.
O que se passa na Saúde não são “equívocos”, não é invenção de ninguém. Vê-se, sente-se e existem registos. E as conclusões que se têm tirado sobre uma realidade que não engana não são, infelizmente, positivas. Só haveria precipitação no que se diz sobre o assunto, como aventou Montenegro, se a apreciação fosse feita à revelia da realidade. Ora, esta não deixa ninguém descansado, sobretudo, quem está a precisar ou perspectiva precisar de um ou outro dos serviços de referência do SNS.