twitter

O Desregrado

Pessoas há que convivem mal com as regras. As que protegem a fluidez da vida em sociedade, do bem comum, do espaço público, da relação com o outro; é toda uma espécie a proliferar: o desregrado. Não é terrorista, nem criminoso das notícias, apenas o que transforma o quotidiano num inferno de incivilidades normalizadas. Começa no momento em que o pé atravessa o tapete da porta. Há quem faça profissão em violar as regras e acredita que o espaço público é uma continuação do sofá.​ O respeito que não se tem pelo outro começa, afinal, na falta de respeito por si mesmo. É o especialista do jardim que decide cortar a relva ao domingo às sete da manhã. Ou no elevador, ataca botões, despeja a beata no chão, marca território como cão distraído: o prédio é de todos, logo não é de ninguém. Chegado ao contentor do lixo, encontra-o cheio ou acha que sim, porque nem se digna a abrir a tampa. Vê um saco pousado fora, despeja o seu ao lado, em solidário ajuntamento de porcaria: “o chão é democrático”; andar cem metros até um contentor vazio é esforço de maratonista, incompatível com quem faz da vida um culto ao atalho. O resultado é um mimetismo sujo: um lixo puxa outro, e a rua vai-se transformando em vazadouro. Quando liga o popó, alguns de dar no olho – porque o dinheiro não compra educação, princípios e retidão – é que são elas; os piscas são adereços, os traços contínuos são desenhos no chão, empecilhos modernos para o despacho. A prioridade da direita vale para tudo e já não conhece exceção, pois ao condutor exímio só lhe quedou na memória o direito, mas varreu-se o resto. As faixas BUS viram corredores de aceleras, escapatórias que os que vão na fila ao lado – os cumpridores – não parecem querer ver, são os tontos oficiais! Depois dá vontade de sermos tontos e ser defensores intransigentes da tonteria geral inadmissível numa sociedade desenvolvida e culta. O incumprimento de regras de trânsito são hoje praga; ou porque pouco interessam, pois estamos com pressa, ou pior, porque a carta parece ter saído nas famosas caixas da farinha Amparo, que melhor não há. Leva-se os filhos ao colo deste espetáculo, estacionando em cima de passeios, em segunda e terceira fila à porta das escolas, pois só falta entrar na sala de aula com o carrão. A pensar entradas diretas! E terminam com um rico café na esplanada, com o carrinho largado em qualquer lado improvisado a fazer de parque, com os piscas ligados que agora já conhecem. Mas são estes que se erguem em exigências morais e cobram aos funcionários, aos professores, aos vizinhos, aos outros! Pelo meio, ai ai, se alguém os impele civicamente, os confronta ou chama a atenção! Sim, porque o Estado, a mais das vezes, é passivo e demite-se da função preventiva, mas também fiscalizadora, punitiva e de autoridade que recompensa o incumprimento; logo esbracejam, sobem o tom, gritam, ficam coléricos e sabe-se lá mais o quê. É melhor mesmo ignorar. A desculpa suprema chega quando os filhos, já treinados na escola da impunidade, desatam a replicar os mesmos gestos. Perante qualquer reparo, a resposta disparada sai automática: “Quem lhe dá a educação sou eu”; mas não dão. São os mesmos que se gabam quando os filhinhos (que um dia serão os dirigentes, os empresários, os trabalhadores deste país) fazem asneira ou riem, desvalorizando comportamentos antissociais com a máxima: “é da idade, depois passa.”; só que não! Cumprir as regras de responsabilidade individual e coletiva, algumas só de bom senso, não deveria ser mania. As regras importam para organizar a convivência social, criar segurança, prever comportamentos desajustados, clarificar os limites para o bem-estar de todos, promovendo justiça e ordem. Se a regra morre, o sistema passa a anarquia e a liberdade passa a libertinagem ruidosa que confunde egoísmo com direito e esperteza com inteligência. E, nesse dia, não haverá popó com quatro piscas que nos valha: estaremos todos, cumpridores e desregrados, parados no engarrafamento ético que ajudámos a criar.



 

António Lima Martins

António Lima Martins

13 janeiro 2026