Infelizmente, nenhuma guerra terminou. Pelo contrário, com a entrada do novo ano, novos focos de guerra prosperaram.
Os ingredientes permanecem: o discurso de ódio, as ameaças de destruição, o recurso às armas: desde as palavras até às atitudes, desde o que escrevemos até ao que fazemos, em tudo nos mostramos – petulantemente – armados.
«Ragebait» foi, segundo a conceituada Universidade de Oxford, a palavra que marcou o ano findo. E, tudo indica, continuará a marcar este e outros (muitos) anos.
À letra, «ragebait» significa «isca de raiva». Trata-se de uma técnica de comunicação – publicidade? – que visa intencionalmente provocar sentimentos de raiva, irritação.
Se uma publicação ambiciona alcançar muitas visualizações, basta que acenda uma qualquer polémica e desencadeie ondas de fúria. A atenção está assegurada e a paz comprometida.
Não é só nas batalhas que se combate. Hoje, pelejamos em tudo: nos combates, nos debates, nas afirmações e nas contestações.
Em suma, a guerra está entre nós. Que a paz esteja, que a paz venha a estar.
Foi a saudação de Cristo ressuscitado, retomada por Leão XIV no dia da sua eleição e na mensagem para o recente Dia Mundial da Paz: «A paz esteja convosco» (Jo 20, 19. 21).
Só que a paz que Jesus dá é a paz que o mundo teima em rejeitar: uma paz que não vem pela negociação, mas pelo acolhimento.
A paz é-nos oferecida por Jesus: uma paz sem armas, «desarmada e desarmante».
Muitos dirão que é lirismo, mas a verdade é que, enquanto houver uma única arma no mundo, subsiste a tremenda possibilidade de ela ser usada para ferir, para eliminar, para matar.
Acresce que o número de armas é assombrosamente volumoso. Só em 2024, as despesas com a indústria da guerra atingiram a obscena cifra de 2,72 biliões de dólares.
Daí que, além da violência que está em marcha, haja uma enxurrada de focos de violência, prontos a estilhaçar vidas e a comprometer a paz.
Esta – a paz – só será «desarmada» se, prévia e concomitantemente, conseguir ser «desarmante».
E, para isso, o Santo Padre, partindo do quadro da manjedoura, propõe-nos que olhemos para aquele Menino, Filho de Deus.
Efetivamente, «nada tem a capacidade de mudar-nos mais do que um filho».
Haverá algo mais «desarmante» do que olhar para um filho?
Haverá alguém que não estremeça ao pensar que as armas podem também exterminar os seus filhos?
Trilhemos, então, «os caminhos “desarmantes” da diplomacia, da mediação, do direito internacional».
E, acima de tudo, não esqueçamos o preceito maior: «Amemo-nos uns aos outros» para que deixemos de «nos armar uns contra os outros»!