twitter

Por Entre Linhas e Ideias


 

Quantas vezes conseguimos defender uma coisa enquanto fazemos o contrário sem sequer dar por isso? Começo por aqui porque o ano é novo e janeiro pede um início mais sensato, mesmo quando o mundo continua cheio de problemas sérios, conflitos, pressões e notícias que chegam demasiado depressa para lhes darmos a atenção que merecem. Talvez por isso devamos começar o ano com um olhar mais divertido, não para esquecer a gravidade do mundo, mas para abrir espaço à curiosidade e ao pensamento. Sempre gostei de pensar com paradoxos, porque nos ajudam a reconhecer incoerências e a testar ideias antes de as transformarmos em certezas. Pensar nas nossas contradições humanas pode ser uma boa forma de abrir conversa com os leitores do Diário do Minho, um jornal feito do olhar das pessoas, das suas dúvidas, escolhas e desafios.

Partindo desta ideia, caminhamos para a Grécia antiga, o ponto onde os paradoxos começaram por desafiar a própria linguagem. Epiménides, filósofo grego, nascido na ilha de Creta, deixou a frase “todos os cretenses são mentirosos”, um enunciado que se tornou famoso porque se inclui naquilo que afirma. Se ele diz a verdade, a frase desmente quem a disse, mas se ele mente, a frase passa a ser verdadeira. Este paradoxo simples continua a ensinar algo essencial, mostrando que a linguagem, quando fala sobre si própria, cria tensões que não anulam o pensamento, apenas nos fazem pensar melhor.

Seguindo a linha do tempo, chegamos ao Paradoxo do Barbeiro, proposto pelo filósofo Bertrand Russell. Ele descreveu uma aldeia onde o barbeiro barbeia todos os homens que não se barbeiam a si próprios, e apenas esses. O impasse lógico surge quando perguntamos quem barbeia o próprio barbeiro, porque a regra, ao tentar abranger quem a formulou, entra em contradição inevitável. A sua citação lembra que “a contradição é a fronteira onde um argumento revela se foi pensado com rigor”, uma ideia que continua a fazer sentido sempre que uma regra parece simples demais para admitir exceções.

Ainda na reflexão sobre regras que se viram contra quem as propõe, passamos da lógica para o campo dos valores, onde aparece Karl Popper, filósofo austríaco, que nos deixou o Paradoxo da Tolerância. Este paradoxo diz que, se uma sociedade tolerar tudo, incluindo quem quer destruir a tolerância, está a dar espaço para que a intolerância acabe com o próprio valor que diz defender. Em nome de proteger a tolerância, pode acabar por a perder, porque permitiu a quem não a respeita o poder de a destruir. Popper, deixou a ideia clara quando escreveu: “a tolerância exige vigilância crítica para não ser uma porta aberta à sua própria negação.”

Continuando, o filósofo Robert Nozick propôs a Máquina de Experiências, uma experiência mental marcante que procura questionar o hedonismo, ou seja, a ideia de que a felicidade se resume à sensação de prazer que sentimos. Passo a explicitar o paradoxo de forma simples, com a pergunta que nos coloca perante a própria contradição humana: se existisse uma máquina capaz de nos fazer sentir uma vida perfeita, mesmo que nada fosse real, escolheríamos permanecer nela ou preferir a realidade, com as suas falhas e desafios? Nozick mostra que tendemos a escolher o real, porque a felicidade não é apenas sensação, é experiência vivida, construída em ligações reais e em transformação pessoal. Foi essa mesma tensão que inspirou a temática filosófica do filme Matrix, onde o que está em jogo não é só o prazer que sentimos, mas a verdade da vida que vivemos e construímos através das nossas escolhas.

É inevitável que eu leia estes paradoxos com os olhos de quem passa a vida numa sala de aula. Ao longo dos anos a ensinar lógica e ética, percebi que os paradoxos não são um truque, mas um treino de atenção e de honestidade no pensar. Quando um aluno descobre que uma regra não se aguenta até ao fim, aprende que o valor da lógica está em testar as ideias antes de as aceitar. Os jovens ganham mais quando aprendem a questionar do que quando apenas decoram, porque começam a pensar por si, a perceber incoerências e a transformá-las em perguntas que os ajudam a crescer.

Encaminhando-me para o final, sugiro aos leitores que conheçam A Contradição Humana, de Afonso Cruz, um livro que nos lembra que somos seres que se contradizem, que afirmam e revêm, que querem e duvidam ao mesmo tempo. O livro mostra que a contradição faz parte do que nos define, e lê-lo ajuda-nos a pensar melhor sobre essas tensões humanas e sobre as do mundo.

E, porque o pensamento está sempre a ser revisto, a filosofia ajuda-nos a olhar para os paradoxos do presente com a mesma seriedade que damos aos do passado. Por isso, convido os leitores do Diário do Minho a observar os paradoxos da política internacional, onde países dizem defender princípios que, por vezes, os seus atos contradizem. Pensar o mundo exige atenção, porque a contradição também nos governa.


 

E nós, quantas vezes pedimos certezas ao mundo sem resolver as nossas próprias contradições?


 


 



 

*Professor de Filosofia



 

Eugénio Oliveira

Eugénio Oliveira

7 janeiro 2026