No desporto, o lugar do treinador é, por tradição, instável. Basta uma série de “maus” resultados para que o discurso do “projeto” dê lugar à urgência da “mudança”. O caso de Rúben Amorim é mais um… em que o banco de suplentes passa a ser o local mais solitário do Desporto. Há uma margem ténue entre o despedimento e a continuidade, onde a paciência é curta e a memória ainda mais. Há ambientes que pesam mais que os próprios resultados.
Em determinados cenários, repete-se o ritual: pressão nos bastidores, ganância de alguns, nomes lançados para a sucessão, treinadores desempregados agitados, comunicados preparados, manifestação de confiança plena (mas, a prazo…). O treinador passa de aposta estratégica… a problema.
O despedimento surge como penso rápido, quase sempre justificado pela necessidade de inverter a tendência. O Manchester United, por exemplo, mudou em poucos anos, 10 treinadores e o que mudou nos resultados? Muda-se o comando técnico com a esperança de um efeito imediato, mesmo que o contexto nada mude, de forma estrutural. O plantel continua com as fragilidades conhecidas. Muda apenas a urgência. O despedimento surge como solução simples para um problema complexo, como se trocar o rosto no banco fosse suficiente para alterar a realidade em campo.
Nem sempre a mudança resolve. Muitos despedimentos acontecem antes de qualquer avaliação consistente do trabalho desenvolvido. Pouco se discute se o treinador teve tempo e condições para implementar as suas ideias ou se a direção assumiu as suas próprias decisões. No final, a saída do treinador funciona como catarse pública: alguém tem de pagar, e esse alguém é quase sempre o mesmo. Afinal, o treinador sai quase sempre “sozinho”. Sai com a pasta debaixo do braço, deixando para trás tudo o que foi feito e um “projeto” que se interrompe. Dias depois, outro ocupa o mesmo banco, com as mesmas promessas e a mesma urgência.
Entre despedir e continuar deveria existir uma linha clara, sustentada por objetivos definidos e análises internas rigorosas. A continuidade, por sua vez, também não está isenta de críticas e exige coragem. A questão está no critério — ou na falta dele. Fala-se em projetos, mas decide-se à semana. Defende-se a formação, mas exige-se rendimento imediato. Cobra-se visão a longo prazo num calendário que não permite respirar. Neste cenário, o treinador vive permanentemente sob avaliação, mesmo quando vence. No entanto, o desporto continua refém da emoção do último resultado. O ruído exterior pesa muito mais do que as convicções e as bancadas acabam por precipitar as decisões.
No fim, a questão repete-se: muda-se o treinador, mas muda-se o quê, exatamente? Enquanto essa resposta não for clara, a corda continuará esticada — e o treinador, inevitavelmente, será o primeiro a cair. E o banco continua ali, à espera do próximo solitário.